Entre os pacientes internados no Hospital de Caridade, 16 receberam cada um uma dose do antídoto contra fumaça tóxica vindo dos Estados Unidos no sábado. Segundo a diretora clínica da instituição, a infectologista Jane Costa, eles já apresentaram melhora no quadro. “É um remédio de assistência pré-hospitalar. Nos Estados Unidos ele é aplicado pelos bombeiros no local das ocorrências. Nós não dispúnhamos nem no Brasil”, lamentou.
Jane atribui a recuperação dos feridos ao trabalho em equipe. “A cidade se comportou muito bem. No domingo tinha médico de pantufa, de bermuda, que saiu da cama direto. Estava todo mundo trabalhando”, observou. “Me sinto muito feliz em ter uma equipe assim.” Além da própria equipe do hospital, psicólogos voluntários atuam no atendimento aos feridos e suas famílias.
A diretora clínica do hospital acrescenta que os pacientes que permanecem internados já passaram desde o dia 27 por vários momentos, que incluem o atendimento com fisioterapeutas, enfermeiros, infectologistas e até mesmo oftalmologistas. “Muitos tinham lentes de contato, que tiveram de ser removidas”, detalha a médica.
Uma das experiências novas por que os médicos passaram na última semana, conforme Jane, foi ter de estudar medicina de guerra e de grandes catástrofes – já que os profissionais do Brasil não têm experiência em ocorrências deste porte. “Se fosse criada uma disciplina destas na faculdade, teríamos dois ou três alunos”, calcula.
Pacientes permanecem internados em hospitais de cinco cidades gaúchas: 50 em Porto Alegre (30 em ventilação mecânica); 46 em Santa Maria (seis em ventilação mecânica); três em Canoas (dois em ventilação mecânica), um em Caxias do Sul e um em Ijuí (sem ventilação).
A tragédia
O incêndio na boate Kiss – que fica na Rua dos Andradas, Centro de Santa Maria – começou por volta das 2h30min do domingo passado. O público jovem participava de uma festa organizada por estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Segundo testemunhas, o fogo teria começado quando um dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que acabara de subir ao palco, lançou um sinalizador. O objeto teria encostado em uma forração de isopor.
As pessoas não teriam percebido o fogo de imediato, mas assim que o incêndio se espalhou, a correria teve início. Testemunhas relataram que, a princípio, parecia uma briga e os seguranças fizeram um cordão de bloqueio. Mas, quando viram que era um incêndio, liberaram a passagem.
Conforme relatos, os extintores posicionados na frente do palco não funcionaram. Em pânico, muitos não conseguiram encontrar a única porta de saída do local e correram para os banheiros. Aqueles que conseguiram fugir em direção à saída, ficaram presos nos corrimões, usados para organizar as filas. A boate foi tomada por uma fumaça preta e as pessoas não conseguiam enxergar nada. A maioria morreu asfixiada dentro dos banheiros ou na parte dos fundos da boate.