Na avaliação da psicóloga e conselheira do Conselho Regional de Psicologia do RS, Tatiana Baierle, as mulheres têm ocupado cada vez mais espaço em diferentes níveis que anteriormente eram considerados masculinos. “O espaço vem crescendo gradativamente para as mulheres em áreas, como Engenharia, Medicina e Direito. No entanto, elas continuam sendo minoria em alguns setores, principalmente nos de escolaridade mais baixa”, afirma. A explicação, conforme a psicóloga, é o preconceito, tanto da parte delas, como da sociedade. “Ainda existem pessoas que acham que a mulher não sabe dirigir um táxi ou um ônibus, por exemplo”, diz.
Ao mesmo tempo, carreiras tradicionalmente femininas, como a do Magistério, continuam sendo exercidas, na sua maioria, pelas mulheres, provavelmente pelo mesmo motivo. Dos mais de 80 mil inscritos para o próximo concurso de professores no Estado, 84,56% são do sexo feminino e 15,44%, do masculino, de acordo com a Fundação para o Desenvolvimento de Recursos Humanos (FDRH), que coordena o processo seletivo. A lógica se inverte nas provas da Brigada Militar. Para a função de Polícia Ostensiva, 71,32% dos interessados são homens e 28,68% mulheres. Para Bombeiro Militar, o percentual de mulheres cai para 15,54%, enquanto o de homens sobe para 84,46%. Já para o cargo de Capitão, a presença masculina é de 72,16% e a feminina de 27,84%.
Nos últimos dez anos, as mulheres continuaram uma caminhada de crescimento e de independência também na área afetiva. “Elas são chefes de família e, muitas vezes, optam por terem filhos sozinhas e construir outros tipos de lares”, destaca Tatiana. De acordo com a psicóloga, há atualmente uma tendência de mulheres assumindo posições de chefes do lar. Isso está demonstrado no último levantamento da população do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, que apontou pouca diferença, no Rio Grande do Sul, na quantidade de casas comandadas por um gênero e por outro. Enquanto 1,4 milhão de residências eram de responsabilidade de homens no Estado naquele ano, aproximadamente 1 milhão estavam sob o comando feminino. No restante do Brasil, a diferença é bem maior: 24 milhões (homens) e 16 milhões (mulheres).
A professora de pós-graduação de História da PUCRS, Ruth Chitto Gauer, também nota maior participação feminina no mundo público. “Os papéis sociais se alteraram significativamente no Ocidente desde que começou o movimento feminino no século XIX. Antes, a participação da mulher era predominantemente no mundo privado. Hoje se estende ao mundo público. Uma prova disso é que temos uma presidente, o que jamais se imaginaria há 20 anos”, analisa.
Ruth avalia que o processo deveria ocorrer simultaneamente à oferta de uma estrutura para servir as demandas criadas. “Os estados deveriam acompanhar com mais creches, por exemplo”, menciona. Para ela, as mudanças são muito lentas e ainda não terminaram. “A sociedade ainda está se transformando. As mulheres têm demonstrando bastante competência e devem ocupar cada vez mais postos”, projeta.
Professora e chefe de lar
Foi a vocação que levou Aline Rosa, 31 anos, para uma das carreiras mais tradicionais das mulheres: o Magistério. No entanto, ela não considera o gênero algo determinante para a escolha. “Eu gosto do convívio com os alunos e aprendo com eles”, diz diante dos estudantes do Colégio Estadual Piratini, em Porto Alegre. É nesse estabelecimento de ensino que a professora passa boa parte do dia ensinando Português e Literatura. O restante do tempo, ela divide entre os cuidados com os dois filhos, a casa e os projetos escolares.
Aline, que exerce a profissão desde 2007, é uma das gaúchas que carrega consigo a responsabilidade de ser chefe do lar. “Os pais dos meus filhos não moram em Porto Alegre. Por isso, é tudo comigo”, relata. Apesar de conseguir fazer tudo, às vezes, ela pensa que não vai dar conta. “Tem momentos que parece que não vou conseguir”, afirma. A professora sai de casa cedo com o caçula de um ano e cinco meses. Deixa o menino na creche e vai para a escola. O mais velho, de 11 anos, faz alguma atividade pela manhã e almoça sozinho a comida que ela preparou à noite. No final do expediente, ela pega os dois - um na escola e outro na creche - e os leva para casa.
Mais cautelosas ao volante, mas seguem sendo minoria
Elas são mais cautelosas ao volante e se envolvem menos em acidentes de trânsito, mas continuam sendo minoria entre os motoristas profissionais. De acordo com o Sindicato dos Taxistas de Porto Alegre (Sintáxi), cerca de 10 mil homens conduzem táxis na Capital, enquanto apenas 30 mulheres desempenham a profissão na cidade. Uma delas é Joice Justiça Romani, 48 anos, que inclusive já recebeu uma distinção da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), em 2010. Trata-se do selo “Táxi Seguro”, que avaliou o atendimento e a segurança na condução do veículo.
“Eu não tenho nenhuma multa, nem reclamação”, afirma. Após a separação do ex-marido, Joice decidiu investir o dinheiro que tinha em um táxi, em 2001, e deu certo. “Adquiri muitas coisas e criei meus filhos com a profissão”, conta. Um dos filhos seguiu o exemplo da mãe. “Com o dinheiro de taxista, ele pagou toda a faculdade e agora está na Austrália”, revela, orgulhosa.
O presidente do Sintáxi, Luiz Nozari, explica o medo dos taxistas diante das mulheres: “Elas são muito melhores e os clientes preferem”. Conforme ele, as mulheres inspiram mais confiança. “É inquestionável que elas prestam um melhor serviço em termos de educação. Elas têm facilidade no trato com as pessoas”, ressalta. Lembra que, em 1978, havia uma só mulher. “Os homens não precisam ter ciúmes, porque elas estão ampliando a nossa clientela”, destaca.
“Quero ser uma mãe delegada”
Na área da segurança, as mulheres também ocupam seus lugares. Elas eram maioria na turma em que se formou, em 2008, a delegada adjunta da 17ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, Shana Luft Hartz, 32 anos. De salto alto, saia e maquiagem, a policial ajuda a coordenar 20 homens e seis mulheres, em uma das áreas onde são registradas mais ocorrências na Capital – mais de 2,6 mil ns dois primeiros meses do ano. “Com os subordinados nunca tive problema. Eu já senti diferença no tratamento de chefia e da sociedade”, relata.
Quando iniciou a carreira, no Sul do Estado, Shana precisou enfrentar “um certo” machismo. “Havia pessoas que pediam para falar com o homem no comando”, comenta. Em casa, o pai incentiva a profissão da filha. Já a mãe tem medo até hoje. “Toda a profissão tem um risco. Nós andamos com arma, é claro, mas fazemos planejamento para sempre evitar o confronto. Nunca precisei passar por essa situação”, revela. Na hora de ir para campo, Shana deixa a vaidade de lado. “Não corro atrás de bandido de salto alto. Uso a roupa apropriada”, se diverte.