Nos últimos dez anos, diminuiu 17% a média de passageiros pagantes de ônibus, em Porto Alegre. Em outras oito capitais brasileiras também houve decréscimo. Ao mesmo tempo em que se reduziu o número de usuários do transporte coletivo, os automóveis e as motocicletas ganharam espaço. A frota da Capital de carros saltou 25,7% de 2006 até hoje. Pode o ônibus ampliar o número de usuários? A licitação inédita na Capital terá elementos suficientes para reverter o cenário?
Para o diretor-presidente da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Vanderlei Cappellari, a licitação, que conheceu os vencedores na última quinta-feira, vai dar condições para atrair novos passageiros. A ampliação do ar-condicionado, o aumento da frota para reduzir de seis para quatro o número de passageiros por metro quadrado e a implantação do sistema BRT devem ser alguns dos chamarizes. O procurador-geral do Ministério Público de Contas (MPC), Geraldo da Camino, concorda: “A regulação baseada em contratos advindos da licitação deve resultar em um serviço de melhor qualidade. Esse sempre foi o objeto de atuação do MPC, que requereu ao TCE pedido de abertura da licitação”.
O gerente técnico da Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP), de Porto Alegre, Gustavo Simionovschi, lembra que o governo federal incentivou nos últimos anos a aquisição de automóveis, com a redução de impostos e a estabilidade no preço da gasolina. “As pessoas passaram a explorar mais o transporte individual e, com mais veículos nas ruas, os ônibus também ficam presos nos congestionamentos”, diz.
Segundo a Associação dos Transportadores de Passageiros por Lotação (ATL), os usuários que abandonaram os ônibus não aderiram às lotações. “Não houve transferência de passageiros. O governo incentivou a aquisição de carros e nunca subsidiou os coletivos. É visível que a cidade está cada vez mais entupida”, avalia o gerente executivo da ATL, Rogério Lago.
Com mais congestionamento, Cappellari lembra que a EPTC decidiu em 2010 ampliar a frota de 1,5 mil ônibus para 1,7 mil para que o tempo de espera nas paradas não fosse tão impactado. A fórmula, no entanto, contribuiu para o aumento da tarifa. Há dez anos, a passagem custava R$ 1,40 menos do que hoje, um aumento encarado com protestos pelos porto-alegrenses.
Uma das saídas é reduzir tempo
Uma das fórmulas para aumentar o número de passageiros é reduzir o tempo das viagens. Há exemplos concretos nos últimos meses, com a implantação dos corredores de ônibus na zona Sul. Segundo Vanderlei Cappellari, da EPTC, na avenida Praia de Belas, a partir de março, as linhas tiveram ganho no tempo de até 31% no pico da manhã e 37% à tarde, em 5 quilômetros, entre as avenidas Icaraí e Borges de Medeiros.
O ganho de tempo também ocorreu na faixa prioritária para ônibus, aberta no final de 2013 no eixo das avenidas Cavalhada, Nonoai e Teresópolis. “O ônibus levava o dobro de tempo na comparação com o carro. Diminuiu pela metade e já aumentou 4% o número de passageiros na região. A implantação do BRT vai tornar o transporte mais rápido, seguro e confortável.”
Usuários dizem que qualidade só decaiu
Se na visão da EPTC a licitação tende a atrair mais passageiros para o sistema, no entender dos usuários não há muitas esperanças. A doméstica Sarajane da Silva, 47 anos, todos os dias utiliza ônibus para se deslocar da Lomba do Pinheiro até o Centro. A passageira avalia que a qualidade só decaiu com o passar dos anos. “Demora muito para o ônibus vir, mesmo no horário de pico, e chega sempre lotado. Dependendo da pessoa, ela abandona. Eu não posso desistir do ônibus porque não tenho alternativa”, diz. Sarajane não acredita em melhoria depois da licitação. “Só vendo para crer.”
Para a copeira Rosi Martins, 54, são necessários novos ônibus e uma melhor distribuição de veículos nas linhas. “Eu fico em média 50 minutos esperando o transporte todos os dias. Cada vez mais as pessoas estão comprando carro buscando rapidez e conforto. Preferem gastar com gasolina do que se submeter a isso”, reclama. O chapeador Nilo Lima de Oliveira, 53, critica a demora. “Nunca vi um ônibus chegando no horário. E quanto mais tempo esperando, mais lotado ele vem. No final de semana piora a situação. Alegam que não tem passageiro suficiente, mas não é o que a gente vê.”
Licitação é alvo de análise
Na medida em que avança e traz indicativos de melhorias ao transporte público, a licitação também é alvo de desconfianças. A bancada do PSol na Câmara Municipal encaminhou no início de setembro denúncia ao Ministério Público de Contas (MPC) sobre indícios de irregularidades na planilha tarifária. O procurador-geral do MPC, Geraldo da Camino, diz que o material está sob análise. Na sexta, o PSol também entrou, no Fórum Central, com uma ação cautelar com pedido liminar reivindicando a suspensão da licitação.
A vereadora Fernanda Melchionna explica que, ao comparar as planilhas que serviram de base para o reajuste da tarifa no início do ano e as apresentadas na licitação, encontrou discrepância nos valores. “A empresa Belém Novo e Sopal apresentaram valores maiores do diesel em fevereiro e preços menores para a licitação em julho, mesmo após o agravamento da crise econômica e o notório aumento para o consumidor”, diz. “É uma situação, no mínimo, estranha. Isso só faz a população ficar mais desconfiada. Os usuários hoje não estariam sendo lesados pagando mais do que deveriam? A qualidade dos ônibus só reduz e a tarifa só aumenta.”
Diminui a preferência por ônibus em Porto Alegre
Números da EPTC mostram que número de pagantes caiu 17% em dez anos