Em entrevista à Rádio Guaíba, a jovem relatou ter procurado o local a fim de melhorar a aparência dos dentes frontais, que eram escurecidos. O dentista, porém, recomendou lixamento, alegando que só clarear não resolveria o problema. "Ele me deu três comprimidos e eu só acordei no outro dia", contou Fabiane sobre o dia do procedimento.
Quando acordou, a estudante verificou que todos os dentes superiores estavam desgastados. Os dentes começaram a quebrar e, uma semana depois, a jovem precisou cimentar coroas permanentes. "Começaram a cair e ele (o dentista) falou que as minhas raízes estavam ruins, mas não fez nenhum exame pra comprovar", disse.
Assim, foi necessária a extração de oito dentes e a colocação de implantes, aumentando o custo do tratamento. A estudante realizou cirurgias, mas acabou perdendo parte da gengiva e do osso. "Prejudica minha mastigação, eu me cuspo para falar, e já usei provisórios, mas ao invés de melhorar, só piora", falou.
Sobre o comportamento do profissional, Fabiane salientou que era agressivo e muitas vezes a deixava esperando por horas, até sua secretária informar que não poderia atendê-la: "Ele só acabava me enrolando e cada vez mais deformando minha gengiva".
Fabiane contou que chegou a pensar que o problema era realmente sua boca, mas depois constatou que outras pessoas haviam passado pela mesma situação. Em maior ou menos grau, o dentista lixava os dentes de todos os pacientes, gerando a necessidade de realizar outros procedimentos, conforme a jovem. "Ele desgastava sem necessidade para o tratamento ficar mais caro", afirmou.
O diretor-presidente do CRO, Flavio Borella, ressaltou que o caso será julgado como todos os outros, apesar de já ter sido constatado que este "foge um pouco da normalidade". Ele contou que não é comum casos dessa magnitude: " O Estado é muito ético e há poucos processos administrativos tramitando no conselho".
O CRO tentará marcar uma nova audiência com o cirurgião para os próximos dias. A Polícia Civil de Capão da Canoa investiga as acusações contra o dentista. O delegado Valdernei Tonete, responsável pelo caso, deve indiciar o suspeito por lesão corporal gravíssima, cuja pena varia de dois a oito anos de prisão.
Conforme o delegado, o profissional sedava os pacientes e causava danos irreparáveis a fim de lucrar com implantes. Pelo menos sete pacientes registraram ocorrência policial. Ainda segundo Tonete, além de fazer tratamentos desnecessários, o cirugião se negava a entregar os prontuários de atendimentos e, em alguns casos, chegou a exibir armas de fogo para intimidar os pacientes.
Durante cumprimento de mandados de busca e aprensão na casa do suspeito, no começo do mês, a polícia apreendeu um revólver calibre.38, uma pistola 380, um arco e flecha e munição. Enquanto a Justiça não intervir, porém, o profissional pode seguir atendendo normalmente.