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Eletrônicos mudam modo de convivência das crianças

Especialistas reiteram importância do acompanhamento dos pais no conteúdo das tecnologias

Psicóloga afirma que é necessário reservar um tempo para momentos diferentes
Psicóloga afirma que é necessário reservar um tempo para momentos diferentes Foto : Samuel Maciel
Por Jéssica Mello

Não há dúvidas de que a vivência das crianças mudou de uma geração para a outra. Jogar bola no meio da rua, descer a ladeira de carrinho de rolimã ou brincar de pipa não são mais brincadeiras comuns para os pequenos. Por outro lado, muita informação está disponível para eles. Segundo a pesquisadora da Feevale Saraí Schmidt, jornalista, mestre e doutora em Educação, há uma outra forma de viver a infância.

A professora de Psicologia da Unisinos Togma Donelli lembra que antes os pais levavam brinquedos ou papéis para desenho a restaurantes, enquanto hoje é comum ver os pequenos fazendo uso de smartphones, tablets ou assistindo a DVDs nesses mesmos ambientes. “Vejo o debate da tecnologia como o que aconteceu com o surgimento da TV. Acho que essas ferramentas trazem a possibilidade de tornar a criança mais ativa, mas tudo o que é demais é ruim”, observa. Para Togma, algumas vezes as relações são intermediadas pela tecnologia, reduzindo o relacionamento face a face. “A comodidade que esses equipamentos geram acaba impedindo o contato direto até mesmo entre pais e filhos”, diz.

Saraí ressalta que a criança tem mais voz ativa dentro de casa e sabe expor suas vontades. A tecnologia acaba estimulando novas habilidades e conhecimentos por meio de aplicativos de jogos. Diz que é preciso sempre um acompanhamento dos pais para saber se o conteúdo não está além do indicado para a idade.

Togma complementa que é necessário reservar um tempo para momentos diferentes, além de dosar o uso dos equipamentos. “Usá-los com o filho ou pedir para que ele explique como funciona ajuda a estar por dentro do que o atrai.”

Os passeios em ambientes externos estimulam a convivência com outras pessoas. “As crianças têm a necessidade da conversa e da atenção. Já nascem com muitos compromissos, sem tempo e responsáveis por sanar a expectativa de ser muito inteligente e habilidosa”, diz Saraí.

Muitas novidades a cada dia

Os jogos no próprio tablet estão ajudando Murilo Rodrigues da Silva Dias, 4 anos, a iniciar conhecimentos em inglês e espanhol. Com um app, aprendeu a falar as cores e os números de um a nove. “Todo dia tem uma novidade, um aprendizado novo”, conta o pai Jonatas Dias, 33.

De acordo com Dias, é difícil controlar a informação que chega até o filho. “Tentamos filtrar para que ele não fique com a cabeça muito cheia e leve a informação de forma mais lúdica”, diz. Ao comparar a sua infância com a de Murilo, percebe que ficava na rua o tempo todo, as amizades eram principalmente, do bairro e estava sempre na casa de um amigo. “Não é possível ficar tanto na rua, quanto eu ficava antes. Há muitos riscos. Estamos mais em uma selva de pedras”, reflete.

Por isso, com a mulher Michele, procura levar o filho em parques e incentivar que jogue futebol, para que não fique apenas com as brincadeiras de casa. Para o estímulo da mente, Murilo é encorajado a pintar e a testar a aptidão com instrumentos musicais.

Os amigos de Murilo são da escola e, para ajudar que a vivência continue fora do horário de aprendizagem, os pais formaram um grupo para fazer diferentes programas e a ideia é cultivar essa amizade. “Com 6 anos, eles terão que mudar de colégio, então estamos programando para que a maioria vá para o mesmo e eles não se separem”, diz. Para o pai, é muito importante conhecer os responsáveis pelos colegas. “Quando eles crescerem será ótimo saber com quem andam.”

Convivência no parque

Com 3 anos, Gabriela Machado do Amaral passa a manhã e a tarde na escola, acorda e dorme cedo. Afinal, a mãe Kelly Cristina Machado, 43, trabalha o dia todo como manicure na casa das clientes e tem dificuldades de encontrar pessoas que cuidem dela. “Quando dá, pego ela mais cedo para fazermos alguma coisa antes de ir para a casa.”

Gabriela é muito comunicativa e gosta que a mãe a leve à Redenção. Entre um brinquedo e outro ela aproveita para conhecer outras crianças. “Conversa com todo mundo, de qualquer idade”, conta a mãe. No parque, cheia de sorrisos e poses aproveitou para fazer fotos.

A menina brinca de massa de modelar e quebra-cabeça. “Eu gosto muito de jogar bola na escola e de pular corda”, conta Gabriela, que agora quer também dançar balé. “Ela já me pediu um tablet, mas acho que é muito cedo. A Gabi tem muita facilidade para mexer, mesmo sem um em casa”, diz Kelly, que se preocupa também com os conteúdos televisivos e, por isso, elas não assistem a novelas ou filmes de adultos juntos. Porém, ela escolhe seus desenhos e DVDs. “Acho que as crianças são muito mais espertas do que na minha época. Eu nem me preocupava como estava vestida e ela escolhe suas roupas e acessórios, tudo combinando.”

Kelly até se preocupou que a filha estivesse avançando rápido as etapas e perguntou à psicóloga como deveria conduzir seu desenvolvimento.

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