A pequena Ana Laura, 7 anos, teve que esperar dois meses e três horas para poder abraçar o seu pai, o capitão-médico Fabrício Almeida de Moura, de 35 anos, e lhe dizer o que havia prometido falar a ele quando chegasse ao Brasil: "te amo, papai". O encontro do capitão com os familiares – além da filha, estavam a mulher, Juliana Moura, 27, e os sogros – foi na sede do 3º Batalhão de Polícia do Exército, neste sábado, em Porto Alegre. Fabrício e mais 40 militares que estavam na missão da ONU no Haiti desembarcaram nesta manhã em Canoas. Todos ficarão em quarentena até segunda-feira, no batalhão, e passarão pela chamada desmobilização psicológica, que visa adaptá-los à realidade diferente do país do Caribe, além de exames médicos.
Ana chegou ao batalhão quase junto com o ônibus que levava o oficial e seus colegas de farda. Foi programada uma formatura, no pátio da instituição, para dar as boas vindas ao grupo. A garotinha ficou em uma ala, junto com os familiares. Ela não escondia a ânsia de rever o pai. Pouco tempo depois, Fabrício apareceu no pátio e Ana não se conteve, começando a gritar por ele. Porém, o oficial não teve tempo, e logo foi levado de volta aonde estava o seus comandados – ele era o comandante daquele contingente. Com os militares em forma, Fabrício foi conduzido até onde a filha e a família estavam. Ana quase não acreditou e saltou no pescoço do pai, ficando agarrada ao militar por alguns minutos.
Após a formatura, o oficial, juntamente com o 2º sargento-enfermeiro João Nélio dos Santos Teodoro, 33 anos, o cabo Cláudio Augusto Pinto Camargo, ambos de Uruguaiana, e o 3º sargento Rogério Casarotto, de Cachoeira do Sul, falaram com a imprensa. Na chegada ao galpão, mais um longo abraço de Ana no pai. Emocionado, o capitão afirmou ser maravilhoso estar de volta à família e não tinha como descrever o que estava sentindo. Nem mesmo o fato de ficar três dias confinado no batalhão não abateu o oficial, natural de João Pessoa (PB). "É uma sensação de alívio e ter a minha família aqui já está muito bom", disse, com a voz embargada. "Quando chegar vou abraçar muito as duas (filha e mulher)".
Fabrício lembrou dos momentos difíceis após o terremoto. O local onde estavam não sofreu grandes estragos, mas o entorno ficou arrasado e, logo em seguida, começaram a chegar haitianos feridos. Imagens fortes ficarão na cabeça do oficial, que nunca tinha passado por uma tragédia como essa. Ele afirmou que o mais marcante foi ver pessoas trazendo crianças feridas, com membros amputados e outros com os filhos nos braços, já mortos. Os hospitais da cidade e o militar não tinham condições de atender a tamanha demanda, considerou Fabrício, que lamentou a dificuldade de atender a população dada a escassez de remédios e materiais hospitalares. "Não dá para esquecer o que vi", afirmou. "O sofrimento do povo haitiano, que já é tão sofrido, e as cenas de desespero daquela gente são algo que não se esquece".
O sargento-enfermeiro João Nélio, preferiu não falar dos piores momentos, mas sim daqueles que ele considerou os melhores, que foi quando tiveram a certeza de que muitas pessoas tinham sobrevivido. O momento de maior emoção foi quando o sargento participou de uma equipe de resgate e conseguiu tirar dois militares brasileiros de baixo de escombros. Com a voz embargada, fazendo força para não deixar os olhos encherem d'água, lembra da alegria e do que pensou no momento. "Lembrei que duas mães no Brasil iam ficar felizes, porque seus filhos estavam vivos", disse. "Esse resgate emociona bastante", afirmou o enfermeiro.
Emoção no reencontro de militares e familiares
Oficiais lembraram momentos difíceis após o terremoto no Haiti