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Epidemiologista diz que sobrecarga do sistema de saúde do País pode ocorrer nos próximos 90 dias

Especialista alerta para curva "visivelmente ascendente" no Brasil

Sistema de saúde do país deve enfrentar sobrecarga nos próximos 90 dias
Sistema de saúde do país deve enfrentar sobrecarga nos próximos 90 dias Foto : Alina Souza

Noventa dias após a marca de 20 óbitos por conta do novo coronavírus, o Brasil chega à marca de 49.976 óbitos por conta da doença. Levando em conta o aumento no período de três meses, é possível afirmar que a Covid-19 vitimou pelo menos 555 pessoas por dia, de 20 de março a 20 de junho. De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil ultrapassou 1 milhão de casos confirmados.

Conforme o doutor de Epidemiologia e professor de Epidemiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Paulo Petry, em números absolutos de óbitos o Brasil é o segundo maior mas, em números relativos, quando se trabalha com mortes por milhão de habitantes, cai para o 10º lugar. “Parece uma boa notícia, só que não é. A variação entre os números de 1º a 15 de junho, na Bélgica, por exemplo, foi de 1,8% a mais, enquanto no Brasil foi de 47%. Estamos em uma curva visivelmente ascendente, é preocupante o crescimento do número de casos e de óbitos”, afirmou.

Um mês atrás, no dia 20 de maio, dois meses depois, eram 291.579 infectados e 19.951 óbitos. O crescimento de vítimas fatais foi de 150,49% nos últimos 30 dias, enquanto o número de casos confirmados do novo coronavírus, em território nacional, cresceu 266,13%, chegando a 1.067.579. “Outra coisa importante é lembrarmos que existe muita subnotificação, não testamos de forma adequada e claro que tu só confirma casos, se realiza a testagem. A máxima da epidemiologia é testar e rastrear, identificar o caso através do teste e rastrear os seus contatos, no começo não fizemos isso, as pessoas vieram de outros países e trouxeram o vírus no avião e ele se alastrou, é altamente transmissível”, reiterou Petry.

Segundo ele, existem previsões de quadruplicar o número de casos até o final de agosto. “Isso é assustador, porque os números estão grandes e são todos ainda ascendentes. Quando chegamos a 30 mil mortes, no início de junho, comparando com todos os outros países que chegaram a isso, todos eles, quando chegaram, já estavam na curva descendente, e nós chegamos na curva ascendente”, destacou. Sobre o aumento considerável e constante, Petry explicou que alguns dos principais erros envolvem a falta de distanciamento por parte de algumas pessoas e também o uso incorreto dos itens de proteção, como a máscara.

“Na verdade não respeitamos todos os isolamentos que são necessários, nunca fizemos um lockdown, um isolamento completo, fizemos distanciamento, e demoramos a começar a fazer. No Rio Grande do Sul foi diferente, não que estejamos bem, mas em outros estados ainda são piores”, comentou. Petry já soube de casos, por exemplo, de médicos que precisaram escolher qual paciente atender no estado do Ceará. Ou seja, isso não aconteceu somente no exterior, já está ocorrendo no Brasil. “Não gostaríamos que isso acontecesse em lugar nenhum”, enfatizou.

Além de muita gente não respeitar o distanciamento social, Petry reiterou que ainda é possível verificar muita aglomeração desnecessária. “O trabalhador que vai pegar transporte coletivo, ele não tem escolha, mas vemos frequentemente festas que foram fechadas com mais de 100 pessoas, aqueles grupos que fazem passeios em parques e muita gente que não sabe usar a máscara, usa no queixo, no pescoço, colocam a mão na frente para ajeitar sobre o nariz”, exemplificou. Todos esses fatores, somados a uma falta de comando uniforme, de acordo com Petry nos levaram ao cenário atual. 

“A falta de uma política vertical e forte, de uma liderança que inspirasse mais cuidados, seria fundamental e não se vê investimento em campanhas federais. Perdemos tempo no começo, de não testar e não rastrear os casos no início, depois o descuido da população de uma forma geral”, declarou, reforçando que o avanço da doença é bastante preocupante. Para os próximos 90 dias, Petry comentou que gostaria de estar errado, mas pelo crescimento do número de casos, de óbitos e das internações em leitos de UTI, ele afirmou que estamos caminhando para uma sobrecarga do sistema de saúde. “Precisamos rever comportamentos, as pessoas vão ter que colaborar e se cuidar mais”, assinalou. 

O Brasil, que diagnosticou a primeira ocorrência há 115 dias, em São Paulo, agora ocupa o segundo lugar isolado no ranking de nações com os maiores índices de contaminados em todo o mundo. Segundo a Universidade Johns Hopkins, os brasileiros estão atrás apenas dos Estados Unidos, com 2.206.307. Existem ainda 476.759 casos em acompanhamento, que são as ocorrências notificadas nos últimos 14 dias e que não evoluíram para óbito. 

O recorde no número de novos casos, 54.771 na sexta-feira, segundo o Ministério da Saúde, se deve a uma instabilidade na rotina de exportação dos dados relatados, principalmente, pelos estados da Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo na última quinta-feira. De acordo com a pasta, juntos, estes estados representaram um incremento de 27.436 casos novos em relação ao dia anterior. O recorde em novos casos anterior foi registrado no dia 16 de junho e era de 34.918 infecções.