• Igreja projetada por arquiteto de renome não escapa do abandono
• Foto Correio - Sem ver com os próprios olhos é até difícil acreditar
Construído no final dos anos 1930 no distrito de Itapuã, em Viamão, a 58 quilômetros do Centro de Porto Alegre, o leprosário começou a abrigar portadores de hanseníase em maio de 1940. Até a década de 1980 o lugar continuou recebendo pacientes. Ao todo, foram 2.474 usuários-moradores. Destes, 28 ex-hansenianos ainda vivem lá, agora, por vontade própria ou por não terem nem família que os abrigue.
Doença milenar e contagiosa, a hanseníase era considerada uma espécie de “maldição”. A enfermeira do hospital-colônia, Rita Sosnoski Camello, diz que apesar de descoberta a cura ainda na década de 1940, não houve cura para o preconceito. Foi por isso que, mesmo quando já podiam ir embora do leprosário, muitos escolheram ficar. “Como uma pessoa sairia daqui com as sequelas que elas já carregavam? As mãos estavam sem sensibilidade e em forma de garra, eles tinham comprometimentos nos pés, estavam cegos, com o nariz ‘desabado. Alguns que tentaram sair já não encontraram mais suas famílias, e acabaram retornando”. Hoje, os moradores ocupam uma estrutura mantida por 103 servidores estaduais e 64 terceirizados que se intercalam nos plantões. Parte do conjunto de 172 prédios está desativada. O acesso ao hospital não é pavimentado e a movimentação é pequena, o que aumenta a sensação de esquecimento.
Em 2014, 31 mil novos casos descobertos no Brasil
No Brasil, em 2014, descobriram-se 31 mil novos casos de hanseníase, índice acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O número representa quase 20% dos casos novos no mundo. No Rio Grande do Sul, em 2013, foram diagnosticados 154 novos casos; em 2014, 138 e, no ano passado, 112, segundo o Programa Estadual de Controle da Hanseníase. São os menores números do país - a maior incidência ocorre no Norte e Centro-Oeste. No entanto, acredita-se que nem todos os casos vêm à tona. “Existe uma prevalência oculta. A prova disso é que, muitas vezes, o diagnóstico é feito tardiamente, quando a pessoa já tem avançadas sequelas”, diz a coordenadora do programa estadual, Ângela Machado. Para evitar detecção tardia, é preciso procurar um médico assim que a pessoa notar manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas em qualquer parte do corpo, com falta de sensibilidade ao calor, dor ou tato.
Caminhando pelo leprosário, é possível encontrar os moradores. Um deles é Raul (o nome verdadeiro foi preservado) que chegou ao hospital em 1963, aos 31 anos. Ele foi retirado do convívio da família, na avenida Assis Brasil, em Porto Alegre, para juntar-se a centenas de desconhecidos. “Quando eu cheguei, moravam 1,5 mil pessoas aqui”. Como todos os que tinham condições de trabalhar, ele escolheu ajudar na manutenção das casas e ruas. Casou-se dentro do hospital e conviveu por 44 anos com sua companheira, já falecida. Nas palavras de seu Raul, nota-se como é doído falar das saudades. Internação compulsória durou da década 40 a 1962
Na década de 1930 começaram a ser construídos leprosários em todos os Estados brasileiros, por iniciativa do governo federal – época do presidente Getúlio Vargas – em cumprimento a uma convenção internacional. A missão era separar os doentes dos sadios. Em Itapuã, ergueram-se pavilhões de hospedagem coletiva, casas individuais, igrejas, padaria, cassino, delegacia, prefeitura, enfermaria. Quando os pacientes começaram a ocupar o leprosário, a doença ainda não tinha cura. Mas ainda na década de 40, com o advento da sulfona (medicamento capaz de combater o mal de Hansen), os pacientes passaram a se submeter ao tratamento. “Com a sulfona, o paciente deixava de contagiar os outros. Mas as deformidades causadas pela doença são irreversíveis”, diz a enfermeira Rita.
Em 1962, Tancredo Neves, então ministro da Saúde, assinou um decreto proibindo a internação compulsória. Mesmo assim, o hospital continuou recebendo hansenianos, em especial, os casos mais severos com dificuldade de serem cuidados por profissionais de Saúde nos municípios. De 1986 até os dias atuais, o tratamento para curar a doença, fornecido gratuitamente, é a poliquimioterapia. As cartelas do medicamento terminam com o bacilo, mas não conseguem atacar o peso dos estigmas sociais.
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