O ronco dos motores e o colorido dos parapentes chamaram a atenção dos veranistas de Torres e Capão da Canoa no final de semana. Depois de sair de São Vicente, no litoral de São Paulo, a 70 quilômetros da capital paulista, pilotos e passageiros dos 14 paramotores da “Expedição Montevideo” pararam para abastecer na Praia da Guarita, em Torres, na manhã de domingo. Antes do meio-dia, seguiram para mais um dos pontos estratégicos da viagem, uma pista de aeromodelos situada no km 44 da Estrada do Mar. Antes de pousar, voaram sobre a orla de Capão, causando euforia de quem assistia e daqueles que observavam a praia de cima.
Nesta segunda-feira, a expedição segue viagem em direção às praias do Sul do litoral gaúcho, com parada na Lagoa dos Patos antes de cruzar a fronteira. “Vamos percorrer, pelo menos, 250 quilômetros nesta segunda-feira”, avisa Dhiego Rendeiro, coordenador de solo da viagem. O objetivo é chegar a Montevidéu, capital do Uruguai, no dia 23. Ao todo, a expedição percorrerá 2 mil quilômetros. A viagem está sendo documentada em vídeo, para consumo particular, mas a pretensão dos pilotos é levar o feito para o Guiness Book. “Existem expedições de paramotor que já percorreram maior distância, mas não com tantos pilotos”, explica Rendeiro.
José Roberto Gerolamo, o Beto, voa há 22 anos. Foi ele quem idealizou o projeto há dois anos. “Muita gente queria ir, mas tivemos alguns critérios para selecionar o grupo, como experiência, equipamentos de segurança e proatividade”, aponta. O nível dos pilotos varia entre um ano de experiência e duas décadas. De acordo com Ricardo Maciel, o Caju, o maior destaque da viagem, da qual participam 25 pessoas entre pilotos, passageiro e apoio de solo, é o trabalho em grupo. “Aqui todo mundo se ajuda”, afirma.
O grupo se divide para pernoitar em um ônibus e um motohome, que acompanham o trajeto por solo. O banho precisa ser rápido, pois há disponibilidade limitada de água em cada um dos veículos. Caju é um dos cinco instrutores máster de paramotor do mundo. Apenas dois no mundo são brasileiros. O outro, é Anderson Bech, gaúcho de Cahoeirinha, que também participa da viagem. “Decidi participar pela oportunidade de buscar um desafio pessoal e poder passar experiência para meus alunos”, informa.
Bech trabalha com a instrução de voo em núcleos itinerantes por todo o Rio Grande do Sul e é piloto há onze anos. “Já fiz outras expedições dentro do Estado sozinho. É a primeira vez que voo com mais pessoas. É uma experiência diferente”, opina. Mas nem tudo são flores na jornada. “Por causa de uma pane no motor, tive que pousar numa praia deserta”, recorda Bech. Ele acabou resgatado por pescadores de Barra do Una, São Paulo, e encontrou o grupo alguns quilômetros depois. Não houve ferimentos tampouco avarias, já que o piloto é profissional. Ontem, alguns pilotos também sofreram com a turbulência para pousar em Capão da Canoa, mas nada grave.
A aventura custou cerca de R$ 100 mil, foi paga com recursos particulares e alguns pequenos apoiadores. Além do gaúcho Bech, o grupo é composto por seis pilotos de São Paulo, quatro do Paraná, dois do Mato Grosso do Sul e um do Rio de Janeiro. Apenas um piloto é mulher.
Diário de bordo
Voar para mim se resumia a viagens em avião comercial. Já cruzei mares e montanhas, mas sempre dentro de uma cabine pressurizada sem a chance de palpitar para o piloto. Quando chegamos para fazer a reportagem sobre a “Expedição Montevideo” no domingo, em Torres, eu mal imaginava que teria a chance de voar como passageira de um paramotor. Para o alívio de alguém que tem medo de elevadores e sua frio na sacada de edifícios altos, o piloto que me conduziu é um dos cinco instrutores máster do mundo, o Caju.
O alívio se desfez logo que decolamos. Fiquei tensa, mas com um sorriso no rosto o tempo todo. Vi a Praia da Guarita, o Morro do Farol, Prainha e Praia Grande de cima. De lá, as pessoas pareciam menores do que os bonequinhos do Lego. Apesar do meu pavor, Caju resumiu bem a sensação pelo microfone que nos conectava: “Isso é liberdade.” E era mesmo. O voo de paramotor é superseguro, desde que conduzido por alguém devidamente habilitado.
Decolei presa a dois cintos de segurança e um colete salva-vidas, caso houvesse a necessidade de pouso na água. Sentada em uma cadeira ligada ao equipamento, meus pés pairavam no ar. Puxei uma coragem escondida em algum lugar do meu ser para fazer uma selfie, que me ajudará a recordar os meus 20 minutos de voo. Estou pronta para outra, aguardando convites.
Expedição de paramotores passa pela costa gaúcha
Grupo de pilotos quer chegar ao Guiness Book