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Falta de manutenção e adequações das pontes gaúchas preocupa motoristas

Estruturas construídas há mais de cinco décadas estão defasadas

Ponte sobre o rio Jacuí desabou e matou cinco pessoas em Agudo, em 2010
Ponte sobre o rio Jacuí desabou e matou cinco pessoas em Agudo, em 2010 Foto : Mateus Bruxel / CP Memória
Construídas há mais de cinco décadas, algumas das 1,5 mil pontes existentes no Rio Grande do Sul representam um perigo para a segurança dos motoristas gaúchos. Falta fiscalização e não está descartada a hipótese de ocorrerem acidentes graves em um futuro próximo devido ao péssimo estado de conservação dessas estruturas. O alerta é do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logísticas do Rio Grande do Sul (Setcergs), José Carlos Silvano.

Segundo ele, há mais de dez anos a entidade solicitou ao Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer) uma revisão em 100% das pontes. "Nossa reivindicação é simplesmente ignorada", destaca. Conforme Silvano, motoristas que percorrem o Rio Grande do Sul relatam um clima de total insegurança tanto nas pontes localizadas nas estradas federais quanto nas estaduais, vicinais e no perímetro urbano dos municípios. "Quando percebem que veículo pesado trafega em sentido contrário, os caminhoneiros acabam reduzindo a velocidade e deixam o colega no fluxo inverso passar. Essa precaução tem o objetivo de evitar acidentes nas pontes", exemplifica.

Silvano observa que as pontes construídas nas rodovias estaduais e federais há cerca de 50 anos foram concebidas para um tipo de veículo que transportava de 10 a 12 toneladas, no máximo. "Hoje, um caminhão transporta até 74 toneladas de produtos. Ou seja, as pontes não estão adequadas para receber tanto peso", explica. O problema de conservação das estruturas também ocorreria nos trechos administrados pelas concessionárias de rodovias. "Onde poderia se ter pontes com bom estado de conservação em função da cobrança de pedágio, a situação é precária", revela.

O presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos do RS e SC, Eder Dal'Lago, explica que, além de não suportarem o peso de dois caminhões passando ao mesmo tempo, as pontes não são inspecionadas pelo Daer. "Somente acontece a fiscalização quando ocorrem tragédias, como a de Agudo", afirma. Dal'Lago considera as pontes gaúchas estreitas. Para ele, as pontes estão obsoletas e foram construídas para um tipo de tráfego. "Hoje, temos veículos com 30 metros de comprimento que transportam mais de 70 toneladas diariamente", compara.

De acordo com Dal'Lago, não existe um projeto em discussão pelo governo estadual de recuperação das pontes. "O risco de uma tragédia assusta. Falta fiscalização e o Daer não acena em resolver o problema", lamenta.

PM relata drama da queda em Agudo


Mesmo passados dois anos e meio da queda da ponte sobre o rio Jacuí, na divisa dos municípios de Agudo com Restinga Seca, o soldado da Brigada Militar Cedenir Müller, 35 anos, ainda lembra das cenas da tragédia que abalou o Estado. Segundo ele, cerca de 30 minutos antes do acidente, tinha cruzado pelo local, vindo de Santa Maria, onde reside até hoje. "Quando cheguei ao quartel, em Agudo, comentei com os colegas que a correnteza estava muito forte e tinha muita gente em cima da ponte", recorda. "Quando o ônibus em que eu estava passou pela ponte, senti a trepidação", reconstitui Müller.

O soldado ainda estava conversando com os colegas, quando um telefonema informava aos PMs que a ponte havia desabado. Em princípio, lembrou o soldado, os PMs pensaram se tratar de alguma passagem existente na zona rural de Agudo. "Não acreditamos que era a ponte da divisa das duas cidades", conta. "Um segundo telefonema reforçou a informação", diz. Müller lembra que, quando chegou ao local, o cenário era de desespero, com pessoas agarradas em galhos de árvores. O perigo, segundo ele, era grande, pois um barranco também ameaçava desabar. Na estrada, Müller e os colegas trataram de providenciar uma corda para o resgate. Posicionados no meio da rodovia, eles lançaram a corda para um pescador que estava em um bote. Ele a segurou e foi buscando aqueles que estavam se segurando em galhos. "Os bombeiros, que vinham de Santa Cruz do Sul, não podiam passar para providenciar o socorro", frisa.

Hoje, o soldado lembra da força da correnteza, que o deixou pasmo. Müller nunca havia visto algo semelhante, com a água do rio demonstrando uma força descomunal. "Nunca vi algo tão impressionante", contou. No dia, por volta das 9h, Müller disse lembrar de algumas pessoas que estavam com ele, providenciando ajuda aos que tinham caído na água. Mas hoje é difícil lembrar dos rostos que trabalharam junto para socorrer os acidentados. O soldado ainda tem na memória um grupo de operários, pois eles estavam de uniforme. "Não vejo o trabalho que fizemos para salvar as pessoas como algo individual. Foi um conjunto de forças", ressalta. Além da BM, participaram da operação helicópteros da Base Aérea de Santa Maria e particulares. O trauma ainda ficou na memória de muitos moradores. No acidente do dia 5 de janeiro de 2010 morreram cinco pessoas, entre elas o vice-prefeito de Agudo, Hilberto Boeck.

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