FALTA DE PLANEJAMENTO
O planejamento é um dos pontos apontados por especialistas como fundamental quando se trata de infraestrutura. Isso porque são obras que necessitam de grande aporte financeiro e, ao mesmo tempo, quando não executadas de acordo, acabam por trazer muitos prejuízos e transtornos. Segundo o pesquisador da CNT, Jefferson Cristiano, há um gasto equivocado por parte do poder público, em que os recursos são limitados e a sua aplicação é ruim. “O ideal seria gastar 80% do tempo planejando e 20% executando uma obra rodoviária. O que ocorre na prática é a inversão”, ressalta. A questão é mais relevante quando se em consideração que a maior parte da malha rodoviária foi construída na década de 70. “Para se ter uma noção, na última década a malha federal aumentou 11% e a frota de veículos cresceu 110%. Essa é uma parte da realidade”, alerta.
Nesta mesma linha, o vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado do Rio Grande do Sul (Setcergs), Frank Woodhead, aponta que o tripé quando se fala de rodovias deve ser formado por: planejamento, investimento e execução. Ele recorda que há oito anos o Setcergs realizou um estudo que já apontava a necessidade de duplicação de 2 mil quilômetros da malha rodoviária no Estado. “O que se faz? O governo anuncia obras, mas não as termina. Um exemplo é a duplicação da BR 116, que já teve 70% dos recursos investidos e encontra-se em estado de decomposição porque não é utilizada e nem recebe a manutenção que necessita em função do tempo”, enfatiza Woodhead.
Ainda sobre como o planejamento é crucial para o desenvolvimento da economia, volta-se para a BR 116, entre Guaíba e Pelotas, que é um eixo de escoamento de produção e, em função disso, houve uma elevação no tráfego, maior do que a rodovia tem condições de suportar. Além disso, com a falta de segurança, há um número grande de registro de acidentes e de mortes, que poderiam ser evitadas se a duplicação já estivesse concluída. “Tudo isso poderia ser evitado com o planejamento. Quando uma obra começa ela já deveria ter o recurso integral separado, mas isso não ocorre”, diz o vice-presidente.
Essa situação delicada fez com que a obra recebesse atenção especial recentemente, inclusive com formação de uma Frente Parlamentar pela Conclusão da BR 116 na Assembleia Legislativa. A duplicação, de responsabilidade do Dnit/RS, foi dividida em lotes, que encontram-se em estágios diferentes de conclusão. A duplicação total envolvia um trecho de 200 quilômetros e tinha previsão de término para 2014. O valor inicial foi estimado em R$ 900 mil. Com os atrasos, o custo foi revisto e deverá atingir R$ 1,2 bilhão.
Outro exemplo de problemas graves na execução e no planejamento é a ERS 118, entre Sapucaia do Sul e Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre. O projeto inicial previa a duplicação e a construção de viadutos, melhorando o tráfego e a segurança. Porém, circular pela rodovia atualmente é um desafio. Isso porque esse trecho da rodovia encontra-se em estágios diferenciados de execução e os desvios são diversos, fazendo com que muitos motoristas tenham que conduzir os veículos quase em ziguezague, além dos pontos em que o asfalto apresenta falhas. Há casos identificados em que as placas de concreto estão rachadas. É possível observar ainda a ausência de sinalização ou situações em que ela desaparece em função da vegetação alta. A falta de acostamento também representa riscos àqueles que circulam pela ERS 118, especialmente os pedestres, em muitos canteiros sem nenhuma segurança. Nos poucos trechos em que a duplicação foi efetivada, o trânsito flui sem problemas e não há ultrapassagens, como ocorre nos pontos de pista simples. A presença de caminhões de carga é uma característica da rodovia, que passa em pontos urbanos, com a presença de moradores na faixa, como em Sapucaia do Sul, aumentando riscos de acidentes.
A execução dessa obra já se tornou uma novela com vários capítulos e adiamentos, além de projetos e contratos que precisaram ser refeitos. Segundo a Secretaria Estadual de Transportes, responsável pelas obras, não há previsão para o término do projeto, uma vez que há uma série de variáveis, como a questão climática. Conforme o último balanço, estão em andamento os trabalhos do lote 2, que abrange do km 5 ao km 11, com 80% da duplicação da pista. Os projetos do viaduto da Transpetro, da Trensurb e da Theodomiro encontram-se em análise final, no Daer. Foi dada ainda a ordem de serviço para remoção de imóveis localizados na faixa da rodovia. Os serviços dos viadutos Rondon e Itacolomi estão em execução. Há ainda trabalhos sendo feitos junto ao viaduto Ritter. Além disso, a previsão é de que as obras do lote 3 (km 0 ao 5) tenham licitação em dois meses; já a do lote 1 (km 11 ao 21,5) ainda não tem prazo para licitação.
Falta de planejamento é um dos grandes problemas, aponta CNT
Ideal seria gastar 80% do tempo planejando e 20% executando uma obra rodoviária, diz pesquisador