Os adesivos de identificação ou mesmo as placas dos veículos dão a dimensão das distâncias percorridas até a Capital. Entre os municípios estão Três Cachoeiras (171 quilômetros de distância), São Sebastião do Caí (59 quilômetros), São Lourenço do Sul (191 quilômetros), Nova Prata (193 quilômetros) e Tramandaí (118 quilômetros). Em cada veículo estão dezenas de histórias de vida. Uma delas é a do agricultor da cidade de Capitão - distante 137 quilômetros de Porto Alegre -, Norberto Fochini, 65 anos, que realizou um sonho de infância: conhecer a capital gaúcha.
Conhecer a "cidade grande", porém, não foi em decorrência de uma experiência agradável. Ocorreu em consequência de um momento doloroso. Um acidente na lavoura afetou a sua visão em novembro do ano passado, fazendo com que ele começasse uma verdadeira saga de idas e vindas. Em seis meses, o agricultor precisou percorrer 13 vezes o trajeto entre o município onde vive e a cidade dos sonhos. "Tive deslocamento da retina. Como não houve o atendimento de urgência, a situação se agravou", conta ele, que já perdeu a visão do olho direito e faz o tratamento para manter a do esquerdo no Hospital Banco de Olhos, na zona Norte de Porto Alegre.
Consultas periódicas
Na mesma van está um menino de 5 anos. Com crises de convulsão, ele precisa fazer consultas periódicas em Porto Alegre. "Como precisa do atendimento, toda a família muda a rotina para acompanhá-lo", conta a mãe, Laziane Coimbra. O pai, Valcir Pereira, e os irmãos, de 7 anos e de 7 meses, também viajam. "Não tenho como vir sozinha com as crianças, então acabamos todos juntos. É cansativo, mas é o único jeito", desabafa a mulher, enquanto organiza o lanche dentro do veículo para toda a família antes da consulta, agendada para o meio da tarde.
No comando do veículo está uma pessoa que, particularmente, há mais de 20 anos acompanha e discute, de diversas maneiras, a ambulancioterapia. Jari Hunhoffi é motorista há 21 anos, mas neste período também foi vereador, secretário municipal da Saúde e prefeito de Capitão. Com essa experiência, ele acredita que a única maneira é investir em saúde, especialmente na criação de centros de especialização. "Antes se criticava a existência das filas em frente aos hospitais para marcar uma consulta. A diferença é que as filas estão nos municípios e não são vistas. A demanda reprimida no Interior é grande", avalia. Enquanto a realidade não muda, a solução é fazer o transporte da maneira mais "confortável" para o paciente. Quatro vezes por semana ele traz de dez a 12 pessoas de Capitão a Porto Alegre. Normalmente, saem às 5h do posto de saúde e retornam às 18h.
Vanterapia não termina
O secretário estadual da Saúde, Ciro Simoni, é categórico ao afirmar que o serviço de deslocamento de pacientes de municípios do Interior a Porto Alegre não irá terminar. E pede ainda a substituição do termo "ambulancioterapia" para "vanterapia", já que os veículos mais utilizados deixaram de ser as ambulâncias e passaram a ser as vans. "A capacidade de atendimento construída em Porto Alegre extrapola a necessidade local. Além disso, foram construídos centros de referência na Capital que ainda não existem no Interior", afirma.
Simoni provoca, destacando que, sem os pacientes do Interior e da região Metropolitana, alguns serviços ficariam ociosos. Ele cita o caso daqueles centros que não funcionam na sua totalidade e podem ser ampliados, como a cirurgia cardíaca do Complexo Hospitalar da Santa Casa. "A estrutura que existe pode fazer muito mais do que atende atualmente", pontua.
Em função disso, no ano passado, o governo do Estado e a Prefeitura de Porto Alegre firmaram uma parceria. A iniciativa destina 55% das consultas para os moradores da capital gaúcha e o restante, para os residentes em outras cidades. A parceria fez com que o número de consultas por mês em áreas especializadas subisse de 5,5 mil para 11,5 mil, sendo que o comparecimento nos dias agendados atinge 98%.
Ao avaliar a estrutura de serviço público, o secretário enfatiza que o problema atual é o ingresso do paciente no SUS. Isso significa conquistar o encaminhamento, se for necessário, do posto de saúde local. "A rede especializada está mais avançada do que a rede básica", explica. Se na Capital há excesso de consultas especializadas, como aponta o secretário, no Interior a situação é crítica em algumas áreas. As mais carentes são traumatologia, otorrinolaringologia, urologia e oftalmologia.
Simoni explica que, para tentar amenizar os déficits, a secretaria está fazendo um mapeamento de cada uma das 30 regionais do RS. O objetivo é avaliar as necessidades regionais e onde deverão ser instaladas. O secretário explica ainda que cidades menores passaram a receber serviços médicos especializados, como Agudo, que passa a ser referência para atendimento de traumatologia. Em Pelotas há carência de consultas em otorrinolaringologia, mas existe centro de referência em Piratini.