A farta safra do camarão-ferrinho no Litoral Norte tem se mostrado como um alento em tempos de pandemia, mitigando os efeitos da crise econômica para comunidades da região. Em Cidreira, sem ir a alto mar, pescadores artesanais têm conseguido efetuar grandes capturas da espécie. Em um dia de trabalho, alguns estão conseguindo pescar até 6 toneladas do crustáceo usando técnica de pesca de cabo, que consiste em lançar uma rede de cerca de 30 metros de extensão a uma distância aproximada de 100 metros da praia.
Com tanto camarão, até quem está sem renda e com dificuldades para comprar comida, acaba ajudando a selecionar e a limpar o animal em troca de pescados para a própria subsistência. É a melhor safra desde 2008, segundo o presidente da Associação de Pescadores de Cidreira, Daniel Guglieri, que atribui o resultado à lei estadual 15.223, de 2018, que estabeleceu a Política Estadual de Desenvolvimento Sustentável da Pesca no Rio Grande do Sul e proibiu a atividade de pesca industrial de arrasto dentro de um perímetro de 12 milhas náuticas da linha de praia, o que corresponde a uma faixa de 22,2 quilômetros.
Guglieri explica que o camarão pescado no mar não tem defeso, período em que a pesca é proibida visando proteger a reprodução da espécie. “É somente o camarão da lagoa, aquele pescado na Lagoa dos Patos, que tem a época dele. Na Lagoa de Tramandaí também é assim”, distingue. O camarão-ferrinho costuma ser confundido com o sete-barbas, mas segundo o pescador, eles são diferentes. “Este camarão era arrastado por barcos aqui na região. Este camarão não dá em Santa Catarina”, afirma.
Resultado da restrição da pesca de arrasto é a abundância da pesca na orla. Trabalhando com outros três pescadores, nesta semana Guglieri comercializou cerca de 6 mil quilos de camarão para a indústria, por meio de um comprador de Tapes, na Costa Doce, que revende para empresas de pescado de Santa Catarina. “Aí tem várias famílias que ajudam a fazer a escolha, a tirar o peixinho do meio das redes. A gente doa o pescado para eles levarem para casa e aproveita o camarão para venda”, conta.
A safra do camarão-ferrinho iniciou em julho e segue até novembro. Até lá, o trabalho será intenso. “A gente trabalha quase 24 horas. Retiramos as redes do mar às 6h. Terminamos às 14h a escolha do camarão. Daí carregamos no caminhão, e por volta das 16h30min o pessoal dá uma descansada. Retomamos as atividades às 19h e seguimos até por volta da 1h do dia seguinte”, explica. “Sou pescador há mais de 20 anos, praticamente desde que eu nasci. Em 2008 teve uma safra razoável, mas fazia um tempão que a gente não via uma safra tão boa. Todos sabem que batalhamos muito por esta lei do arrasto e é o que estamos conseguindo deste resultado”, comemora.