“Ele estava gemendo de dor. A acompanhante disse: tu vai tomar um remedinho agora e já vai passar. Só que não era remedinho, era alimentação. Na hora, não sei se foi uma distração minha, em vez de colocar na sonda, coloquei na veia do paciente", contou a técnica. "Aí fizemos a sondagem e, quando estava terminando, veio a notícia de que seu José estava falecendo," relatou emocionada.
Apaixonada pela profissão, a técnica em enfermagem considerou a morte uma fatalidade. “O que eu faço da minha vida? Eu matei uma pessoa”, questionou-se a profissional. O idoso, natural de Maquiné, foi internado por complicações respiratórias.
Conforme a técnica de enfermagem e uma outra funcionária do hospital, depois de constatada a morte do idoso, a enfermeira que estava no plantão ordenou: “Todos para dentro da sala”. Outras quatro técnicas em enfermagem ouviram: “Limpem ele (o braço do agricultor, onde havia resquícios da dieta) e recolham os materiais. Esse assunto não sai daqui. Morre aqui. O médico não viu nada”. O erro humano foi ocultado na certidão de óbito, onde constava: “Parada Cardio Respiratória, Hemorragia Digestiva”.
Dois dias de pesadelo para funcionárias
A técnica de enfermagem que confessou o erro foi aconselhada pela chefia a ir para casa e retornar nessa sexta-feira ao Departamento de Recursos Humanos. Na quarta, após a dispensa, ela perambulou por duas praças de Osório. Ficou com as filhas, silenciou diante de parentes. “Ela estava muito estranha”, disse uma enteada.
A outra funcionária do hospital, que participou de uma reunião classificada por ela de “coação”, não conseguiu conter o sentimento de indignação. “Não consigo dormir. A família do paciente tem o direito de saber o que aconteceu. Isso é crime”, disse.
Causa da morte
Parentes e amigos do idoso não foram informados pelo hospital sobre o que ocasionou a morte do agricultor. O titular da Delegacia de Polícia de Osório, delegado Antônio Ractz, que entrou de férias no mesmo dia, recebeu uma ligação anônima na noite de quarta-feira, contando sobre o caso. De acordo com o delegado João Henrique Gomes, que começará a responder interinamente a partir de segunda, a equipe de investigação foi até o hospital. “Não foi constatada a prova material”, disse. Segundo ele, a administração do Hospital São Vicente de Paulo apresentou a versão oficial de morte natural: parada cardiorrespiratória e hemorragia digestiva.
Com informações dos repórteres Jimmy Azevedo e Matheus Felipe