No aguardo da ordem judicial de reintegração de posse autorizada pela Justiça, o grupo que ocupa um prédio na esquina das ruas Andrade Neves e General Câmara, no Centro de Porto Alegre, fez uma vigília nesta sexta-feira diante da estrutura. As quase cem famílias, que estão instaladas no local desde o 14 de novembro, optaram por permanecer no espaço. Até o início da tarde, o Comando do Policiamento da Capital (CPC) não havia recebido solicitação de apoio para o cumprimento, segundo o comandante Mário Yukio Ikeda.
Enquanto isso, os integrantes dos movimentos da ocupação intitulada Lanceiros Negros aguardavam uma negociação com o governo do Estado, que é proprietário da área de 3,5 mil metros quadrados, construída no início do século XX. Na próxima terça-feira, haverá uma reunião com o grupo de trabalho criado para mediar conflitos. No dia 17, será realizada uma audiência pública para tratar sobre moradia na Assembleia Legislativa.
O escritório de advocacia que apoia o grupo entrou com recurso contra a reintegração de posse, que foi indeferido. O próximo passo é entrar um agravo de instrumento para garantir a permanência da ocupação. Conforme uma das ocupantes, a nutricionista Priscila Voigt, a maior parte das pessoas que passaram a viver no prédio é proveniente de áreas de risco, como a Ilha da Pintada, e com dificuldade de pagar aluguel. Elas vêm de bairros como Partenon, Morro da Cruz, Lomba do Pinheiro e Hípica. Segundo ela, muitas famílias perderam suas casas, ou móveis em enchentes. Outras estão fugindo de locais violentos, dominados pelo tráfico de drogas. “A única alternativa é essa. Morar no Brasil é um privilégio.”
As cerca de 200 pessoas residindo no prédio se dividiram em equipes para fazer tarefas como limpeza, comida e algumas pequenas obras. A faxineira Jussara Vaz dos Santos, 60 anos, participa da coordenação desses grupos. Ela, os três filhos e os dez netos estão no local desde o primeiro dia de ocupação. O aluguel de R$ 700,00, mais as contas de luz e água estavam muito pesados para a família viver em uma casa no bairro Protásio Alves. “Aqui a gente encontrou um apoio.”
O advogado Onir de Araújo aposta em uma solução negociada com o governo. “Milhares de imóveis estão sem utilidade, enquanto isso muitas pessoas não têm onde morar. Algumas não têm para onde retornar.” Ele avalia que os moradores estão em condição semelhante a de refugiados.
Grupo faz vigília em frente de prédio ocupado em Porto Alegre
Quase cem famílias estão instaladas em edifício no Centro