No complexo, existe uma igreja evangélica que foi projetada por Theodor Wiederspahn. O templo é uma das últimas obras assinadas pelo arquiteto alemão. Ele foi responsável por alguns dos mais importantes patrimônios históricos da Capital, como o Edifício Ely, o Hotel Majestic (atual Casa de Cultura Mário Quintana), Memorial do Rio Grande do Sul e o Santander Cultural, localizados na Praça da Alfândega. Apesar do renome do seu autor, a igreja evangélica do hospital-colônia não escapou do abandono. Ela foi desativada depois que o pastor, hanseniano, morreu. Na ausência de outro pastor, todas as cerimônias religiosas passaram a acontecer apenas na igreja católica. Sem celebrações, o prédio começou a ruir. Perdeu parte dos vitrais, o assoalho desabou, uma parcela do telhado está despencado.
As marcas do abandono estão presentes em várias partes. No cassino, também. Ele foi construído pelos próprios moradores com tijolos fabricados dentro das dependências do leprosário. É um prédio imponente. Tem capacidade para abrigar 1 mil pessoas sentadas. Era ali que filmes eram exibidos três vezes por semana. Ao lado, foi construído um campo de futebol, uma sorveteria, uma cancha de bocha. “Devia ser o lugar preferido para a paquera entre os jovens”, especula a enfermeira. Estes espaços de lazer serviam de “fuga” para a insistente tristeza.
PL busca indenização aos filhos que foram separados dos pais
Desde 2007, uma lei federal passou a conceder medidas reparatórias às pessoas que foram submetidas ao isolamento obrigatório. A enfermeira Rita Camello diz que os ex-hansenianos que ainda vivem no hospital-colônia são beneficiários desta pensão vitalícia que hoje é de R$ 1,4 mil mensais. Segundo Rita, hoje os filhos das pessoas que foram banidas do convívio em sociedade lutam para também serem indenizados. Eles argumentam que foram privados do amor de seus pais por terem sido separados quando ainda eram bebês. Acreditando que o Brasil pode escrever história nos Direitos Humanos, o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) acompanha os trâmites do projeto de lei, na Câmara dos Deputados, que busca estender as medidas reparatórias aos familiares.
Na medida em que nasciam dentro do leprosário, as crianças eram imediatamente tiradas do colo dos pais. “Depois do parto, a freira mostrava a criança para a mãe e pedia que ela escolhesse um nome para o filho. Depois disso, todas os recém-nascidos eram levados para o Amparo Santa Cruz”. O amparo fica localizado no bairro Belém Velho, em Porto Alegre, a cerca de 30 quilômetros do hospital-colônia. Uma vez por mês, estas crianças iam de ônibus até o portão do leprosário. “De longe, elas abanavam pelo vidro para seus pais. As crianças de colo eram mostradas pela janela pelas freiras”, conta Rita.
As visitas que eram realizadas entre adultos, dentro do hospital, sempre aconteciam por meio de um vidro para evitar qualquer contato físico. Se alguma carta ou outro objeto era remetido para fora do leprosário, todos os materiais passavam antes pela máquina de esterilização. Toda a organização do Hospital-Colônia de Itapuã tinha o intuito de extinguir a doença, o que ainda hoje é um desafio para o Brasil e para o mundo.