Apesar das cifras milionárias, os investimentos em recuperação e manutenção das rodovias gaúchas se mostram insuficientes. Apesar dos argumentos das autoridades de crise financeira e da limitação de recursos, as melhorias são fundamentais, tanto para impulsionar o desenvolvimento econômico, oferecendo condições mínimas de infraestrutura, quanto para a segurança de motoristas e passageiros.
Assim, a conta da má qualidade acaba sendo paga por todos de maneiras diferentes. A redução na vida útil dos caminhões e de suas peças, como pneus e sistema de freios e o comprometimento da carga estão entre os fatores que impactam nos preços dos fretes e integram a rotina de muitas empresas transportadoras do Rio Grande do Sul. Segundo Marcelo Dinon, que é diretor de uma transportadora sediada em Canoas, os custos extras acabam ampliando o valor do serviço no Estado, reduzindo a competitividade em relação aos outros. “Obrigatoriamente, para fazer o deslocamento de uma carga é necessário uma estrada. A questão são os impactos provocados em função das condições da rodovia”, ressalta Dinon. Ele cita que é altíssima a possibilidade de uma avaria num produto que esteja sendo transportado em uma estrada em péssimas condições, como, por exemplo, televisores. “Esse custo acaba sendo repassado para o cliente que contratou o serviço e, em consequência ao consumidor final”, destaca o diretor. Um exemplo são as pilhas de pneus danificados na sede da empresa, com rasgos e desgastes que antecipam muito o ciclo de uso. No caso do pneu, a vida útil sofre uma redução média de 25% e muitas vezes a peça acaba tendo que ser descartada. No sistema de freio o desgaste também é considerável e pode reduzir o tempo de uso em até 75%, aponta o empresário.
Assim como comentado pelo diretor e destacado no estudo da CNT, o peso da logística prejudica o potencial competitivo do Rio Grande do Sul em relação aos demais estados. “A logística representa uma média de 18% do produto gaúcho. O valor é alto porque os itens são de baixo valor agregado e porque a logística é muito ruim. Temos que baixar para índices mais sustentáveis, reduzindo 4%, o que vai representar muito na economia”, explica o diretor da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Ricardo Lins Portella Nunes, destacando que outros estados acabam saindo na frente neste ponto, como São Paulo e Paraná.
Além disso, esse panorama trava empreendimentos que deixam de ocorrer por falta de condições e outros que não conseguem crescer. Ele cita o caso de quem não consegue levar o seu produto para algum mercado porque não há como escoá-lo. Por exemplo, um produtor de hortifruti que está muito distante de Porto Alegre e que, se conseguisse um frete mais barato, chegaria a esses consumidores. “Com produtos de pouco valor agregado, o custo do frete tem impacto sensível. Quando se há uma logística cara, vários produtores ficam fora do mercado. Ao contrário de quando a logística é boa, que amplia que a competitividade e a concorrência entre produtores, reduz os preços para o consumidor e gera mais empregos”, explica.
As preocupações são maiores com as condições das estradas quando o que é transportado não são cargas, mas vidas, como no transporte de passageiros. “A responsabilidade é grande. Um acidente provocado pelas péssimas condições de uma estrada pode resultar em morte”, destaca o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Rodoviário Intermunicipal, Interestadual e Internacional do Rio Grande do Sul (Sindetri), Eduardo Michelin. Ele aponta ainda que há outros prejuízos, como a impossibilidade de cumprimento de horários das viagens, uma vez que a velocidade média varia de acordo com as condições da estrada, além do maior custo de combustíveis e de manutenção nos veículos, como já apontado, o que impacta no custo do serviço e, automaticamente, no valor da passagem. De acordo com o presidente do Sindetri, os fatores que qualificam uma rodovia vão além do nivelamento do asfalto, envolvem a sinalização, tanto vertical como horizontal, a roçada nas margens e as condições das paradas de ônibus. “Tudo isso contribui para uma maior segurança do motorista e dos passageiros. A vida é o maior custo de uma estrada ruim”, sentencia.
Investimentos em recuperação e manutenção das rodovias gaúchas se mostram insuficientes
Conta da má qualidade acaba sendo paga por todos de maneiras diferentes