Com cerca de 100 mil habitantes, Rivera, separada de Livramento apenas por ruas e avenidas, experimenta acirrado debate sobre o tema nas rodas de conversa e nos veículos de comunicação. Caso a lei seja aprovada pelo senado uruguaio, os ativistas contrários à legalização da maconha prometem articular um referendo para derrubar o regramento. A legislação que pode liberar o uso da Cannabis sativa terá reflexos na fronteira seca com o Uruguai. As autoridades do Brasil argumentam que o cultivo e o consumo são proibidos no país, portanto essa lei local continua aplicada integralmente nas cidades brasileiras da Fronteira. Porém, o trabalho de controle terá que ser ampliado e reforçado, pois o temor é de que haja propagação do plantio da erva, que pode se tornar fonte de renda a usuários.
Para o delegado regional de Polícia Civil, Eduardo Sant’Anna Finn, em razão da crescente disseminação e do baixo preço da maconha, hoje bastante acessível, não haverá influência significativa no lado brasileiro. “É uma questão interna do Uruguai, que deve ser respeitada”, afirmou, fazendo uma comparação com o comércio de munição, que é livre no Uruguai, mas proibido no Brasil.
Segmentos contrários à liberação alegam que o Uruguai não terá estrutura para o controle, prova disso seria a disseminação desenfreada de drogas pesadas como o crack, associada ao crescimento da delinquência naquele país. “Talvez a liberação do consumo da maconha em locais restritos, mediante orientação médica, seja boa alternativa. Porém, liberar o cultivo domiciliar é temerário, pois vai estimular o tráfico interno”, diz Ana Luisa Sosa, que leciona Sociologia em Rivera.
Farmacêuticos do país vizinho se declararam contrários à marijuana. Para o secretário da Associação de Química e Farmácia do Uruguai, Eduardo Savio, não há por que um profissional assumir a responsabilidade de liberar um produto com fins “recreativos”. Conforme ele, a maconha não é uma substância registrada no Ministério de Saúde Pública, por isso, a prescrição não entra na órbita da competência profissional. “Associar a maconha à farmácia desvirtua o conceito de saúde atribuído a estes estabelecimentos”, salientou.
Entre os defensores da liberação, Rubenson Silva, deputado do Partido Socialista por Rivera e integrante da Frente Amplia, diz que a lei, seguramente, não trará solução imediata. Contudo, com o novo marco regulatório, a partir do momento em que começar a retirar os primeiros jovens “das mãos dos traficantes”, já terá valido a pena. Para ele, é natural que existam posições contrárias, mas o tema está sendo estudado amplamente e debatido com a sociedade, que ainda poderá se manifestar em referendo pretendido pelo presidente José Pepe Mujica. “Quem não apoia a regulamentação deseja que o narcotráfico se mantenha. Os próprios políticos que se posicionaram contra, até agora, não apresentaram nenhuma alternativa.”