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Livramento faz últimos preparos para o concurso de pandorgas

A 35ª edição do Festival Internacional de Pandorgas começa na manhã desta sexta-feira

A tradição secular de erguer pandorgas na Semana Santa se renova e inspira os moradores da fronteira. Na manhã desta sexta-feira, começa a 35ª edição do Festival Internacional de Pandorgas, no Parque Municipal do Batuva, em Santana do Livramento.

No concurso serão avaliados quesitos como criatividade, estética e altura no remonte dos objetos. Os adeptos das pandorgas, sejam eles os que praticam o desportismo ou os artesãos que confeccionam os mais variados modelos, transferem os ensinamentos de geração à geração, sem jamais perder o gosto pela prática.

Para muitos, as pandorgas, que no Uruguai são conhecidas por "cometas", se transformaram num lucrativo negócio, pois garantem renda extra para expressivo número de famílias da região. A entrada recente dos artefatos industrializados ainda não conseguiu derrubar a hegemonia daqueles feitos manualmente com taquara, barbante e papel encerado e muita paciência. 
 
A maioria dos moradores que saem de suas casas para erguer os artefatos na Sexta-Feira da Paixão, crianças, jovens ou adultos, preferem locais abertos, como os campos e o topo dos cerros que circundam a cidade, longe da rede elétrica. Na Linha Divisória de Rivera e Livramento – os "pandorgueiros", fabricantes dos artefatos, expõem os mais variados modelos.

Os motivos das estampas enaltecem a paixão pelo futebol dos moradores fronteiriços lembrando as cores de clubes, como a dupla Gre-Nal, Peñarol, Nacional e desenhos infantis, como Tio Patinhas, Turma da Mônica, Homem Aranha e outros personagens. Os mais populares são os "marimbondos" e as "bombas". O primeiro em forma retangular e com roncador é o mais procurado pelos meninos e a "bomba", cheia de franjas na volta, é apontada como pandorga de mulher. Há também os artefatos em forma de avião, morcego, boneco, caixas e a pipa carioca.
 
Fabricando pandorga há 5 anos, o aposentado Antônio dos Santos, de 37 anos, que fatura uma renda extra com a venda dos artefatos, afirma que o costume está muito enraizado na cultura local. Ele disse que recentemente viajou à Quaraí para vender alguns artefatos, mas infelizmente conta que deu com os “burros na água”.  "Noutras cidades, não existe a mesma tradição. São poucos os que têm o costume, mas em Livramento e Rivera, essa tradição popular é muito acentuada", afirmou.

Uma crença popular diz que erguer pandorgas na Semana Santa é uma forma de saudar a ressurreição de Jesus Cristo com a alegria expressada nas mais variadas cores que enfeitam o céu. A publicação Pandorgas e Semana Santa, do historiador Ivo Caggiani (falecido em 2000), relata que a origem do hábito de erguer pandorgas neste período do ano tem sua origem em Valência, na Espanha, onde o costume é idêntico. Lá as pandorgas são conhecidas por "catxirulos".  
 
A tradição, segundo o relato, foi trazida pelos primeiros povoadores da cidade uruguaia de Rivera e assimilada pelos moradores de Livramento. Enquanto as crianças se divertem com as pandorgas, os adultos aproveitam para subir os cerros a fim de procurar ervas medicinais que, se colhidas na Sexta-Feira Santa, têm maiores propriedades terapêuticas. Conhecidas entre os habitantes da fronteira como "jujos", as plantas medicinais mais procuradas são a carquejinha branca, marcela, arnica do campo, lucera,chapéu de couro, sete sangria, erva de ovelha, quina, multa e erva de passarinho de pitangueira. 

Após o encerramento do festival de pandorgas, os moradores da fronteira contarão com outro espetáculo de caráter internacional envolvendo as duas cidades. Trata-se da 10ª edição da Paixão de Cristo, espetáculo que reunirá elenco de 120 atores e figurantes na encosta de Cerro do Marco, na divisa entre Livramento e Rivera. A encenação comçea a partir das 20h. Os organizadores esperam público de 10 mil espectadores no local.