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Livro contábil da Ulbra continha fundo falso

Operação da Polícia Federal investiga um desvio de R$ 63 milhões da instituição

Livro contábil da Ulbra podia acomodar até R$ 50 mil
Livro contábil da Ulbra podia acomodar até R$ 50 mil Foto : Reproduções/CP
Um livro de contabilidade com fundo falso capaz de acomodar até R$ 50 mil. O objeto preparado para transporte ou guarda de dinheiro foi um dos materiais apreendidos pela Polícia Federal durante a Operação Kollector, que investiga um desvio no montante de R$ 63 milhões dos cofres da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), de Canoas.

A reportagem do Correio do Povo teve acesso exclusivo a partes do inquérito, que deverá ser concluído em maio. Os documentos revelam detalhes de como o esquema era executado por antigos gestores da universidade.Entre os materiais encontrados no cumprimento de mandados de busca e apreensão, em dezembro do ano passado, chama a atenção um livro contábil com um compartimento interior preparado para esconder muitas cédulas de dinheiro.

Conforme relatório de análise da Polícia Federal, o objeto foi confiscado na residência de Aérnio Dilkin Penteado, ex-contador da Ulbra. "Por possuir capa de um livro contábil e sendo carregado por um contador, não levantaria suspeita, caso fosse usado para transportar dinheiro", diz o documento.

Na composição do livro foram usadas folhas de rascunhos da universidade, algumas até colocadas de cabeça para baixo. "O que indica que tal livro foi montado para o fim específico de transporte/guarda de dinheiro", diz a descrição do material.No dia da apreensão, a PF encontrou R$ 500,00 dentro do livro, mas, numa suposição com maços de notas de R$ 100,00, a PF constatou a possibilidade de se acomodar no compartimento o valor aproximado de R$ 50 mil.

Sem entrar em detalhes sobre provas do inquérito policial, que estão sob segredo de Justiça, o titular da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários da PF/RS, delegado Aldronei Rodrigues, adiantou apenas que a análise apurada do material apreendido acabou retardando a conclusão da investigação.

A previsão inicial era de que o inquérito da Operação Kollector fosse concluído em março, mas até agora os principais suspeitos ainda não foram ouvidos. "Esperamos concluir o inquérito em 30 ou 40 dias", projetou Aldronei, assinalando que o número de indiciados deve passar de 30 pessoas.

Em 2009, ao longo de oito meses, a PF identificou indícios de lavagem de dinheiro, crimes contra o sistema financeiro nacional, fraude processual, estelionato, formação de quadrilha e crime de desobediência. Conforme a investigação inicial, mais de 20 empresas recebiam valores da Ulbra por serviços de consultoria que não teriam sido prestados, relativos ao período de 2005 a 2009.

Conversa

Interceptações telefônicas gravadas pela Polícia Federal (PF) no segundo semestre do ano passado revelam que o ex-contador da Ulbra Aérnio Dilkin Penteado buscava formas de interferir no trabalho ou de afastar o juiz federal Guilherme Pinho Machado dos processos de execução fiscal contra a universidade.

Em contato com uma advogada carioca, Penteado planejava recorrer a influências de terceiros para intimidar o magistrado. No mês de junho, conforme as gravações, o contador manteve contato com a advogada Arlete Branco Jannuzzi, com quem conversa sobre possibilidade buscar ajuda junto ao grão-mestre da Grande Loja Maçônica do RJ, Waldemar Zveiter, ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça.

Um mês depois, o juiz federal de Canoas penhorou os bens dos contadores Aérnio e Aérnio Dilkin Penteado Júnior, considerando-os corresponsáveis pelas dívidas da Ulbra. A decisão foi mantida pelo Tribunal Regional Federal do RS.

Em agosto, em uma nova ligação, Penteado informa à advogada carioca que irá ao Rio de Janeiro conversar com Zveiter. No diálogo, ela diz que basta uma ligação do ex-ministro para o "juiz se borrar todo" (veja diálogo no quadro anexo). Porém, na parte do inquérito da PF a que o CP teve acesso, não há informações de que a tentativa de intimidação por meio de influência de superiores tenha de fato ocorrido.

Procurado, o juiz federal preferiu não comentar os diálogos que revelam a tentativa de afastá-lo dos processos. Informou apenas que decretou sigilo das provas em seus processos, e que a investigação dos fatos criminais está sob responsabilidade da Polícia Federal.

Tentativa de intimidação

Interceptações telefônicas entre o contador Aérnio Dilkin Penteado e Arlete Branco Jannuzzi, advogada carioca.

Dia 24/6/2009, às 12h58min

Arlete: E aí como é que tá?

Aérnio: Tá... Tô na luta, na batalha entendeu? Agora esse homem aí da Justiça (o juiz)... tá implicando até deputado, prefeito... tá implicando todo mundo.

Dia 21/8/2009, às 18h05min

Aérnio: Eu recebi agora essa notícia.

Arlete: De quê?

Aérnio: Eu vou falar com o Zveiter.

Arlete: Ótimo, que bom, viu? Mas se você falar com o Zveiter ele manda, ele vai mandar... só uma palavra dele acabou, o cara lá vai se borrar.

Aérnio: Isto.

Arlete: Sabia disso? Uma palavra... um telefonema... o cara lá se borra (...) entendeu? Vai ficar de queixo caído.