Das mais de 1,4 mil pessoas com hanseníase que passaram pelo Hospital-Colônia Itapuã (HCI), o Leprosário, 32 ainda vivem na instituição em Viamão. Desde que foi fundado, em 1940, o local segue praticamente isolado. Tanto é que o entorno segue se caracterizando como uma região com poucas residências e um quinto do trajeto de 48 quilômetros do Centro de Porto Alegre até o conjunto de casas ainda é de chão batido. Distantes do convívio com outras pessoas, os antigos pacientes vão envelhecendo e, à medida que isso acontece, a história do lugar se perde. Para resgatar as quase três décadas em que os enfermos ficaram impedidos de fazer parte da sociedade, um memorial foi instalado, nos últimos dias, reunindo documentos e objetos da época.
O acervo tem equipamentos cirúrgicos, de laboratório, fotos e registros. O material foi organizado na antiga Casa das Freiras, que faz parte do complexo hospitalar. Ambientes da época de isolamento estão reconstruídos nas peças do imóvel, com dois andares, além do sótão. Como ninguém com a doença podia sair e a colônia era de difícil acesso, havia uma pequena cidade dentro de Itapuã. Os pacientes e funcionários, muitos deles também com hanseníase, precisavam fazer a comida, os sapatos e praticamente tudo o que usavam para a subsistência no interior do complexo. A padaria, a sapataria, a criação de animais davam conta das necessidades dos moradores. A produção dos utensílios e dos alimentos também foi recriada e exposta no museu. “Os moradores tinham muita história para contar, e nós resgatamos isso. Os que ainda vivem nas casas são mantidos pelo Estado. Uma lei federal assegura a assistência, porque essas pessoas foram sequestradas das suas famílias”, explica o diretor adjunto do Departamento de Coordenação dos Hospitais Estaduais, Pablo Magalhães Medeiros. Ele lembra que, além dos relatos dos doentes, foram reunidos elementos sobre a vila, que inclui a colônia japonesa, pescadores e comunidade indígena.
Uma parte do cassino, que funcionava em um casarão como forma de entreter os pacientes, foi montada no memorial e é uma das curiosidades. Os jogos, o trabalho realizado dentro do hospital e os esportes ajudavam os hansenianos a passar o tempo distantes das famílias. Eles até montaram um time de futebol. Os registros dessas atividades contrastam com a tristeza causada pela doença, que, além de deformar, segregava os portadores. Os medicamentos utilizados antes do avanço do tratamento, fotos de pacientes mutilados e ilustrações da história da hanseníase no mundo também podem ser vistos.
Local quase abandonado
Ao lado de uma reserva ecológica, o espaço adaptado em uma antiga fazenda em Itapuã não trouxe felicidade para ninguém que passou por lá. “Este hospital guarda muitas tristezas”, relata o enfermeiro Márcio Cechin. Ele trabalha na colônia há cinco anos e, além de atender aos ex-internos que ainda residem no local, presta assistência aos cerca de 58 pacientes psiquiátricos que estão acomodados no hospital.
A maior parte das dezenas de casas, antes cheias de moradores, está abandonada. As duas igrejas – uma católica e outra protestante – não realizam mais missas. O cassino tem as portas cerradas, assim como também a maioria das demais estruturas do local. “Quem ficou aqui é porque foi rejeitado pela sociedade e porque a família não quis mais”, analisa Márcio Cechin, referindo-se ao estigma da hanseníase.
Há 35 anos trabalhando no setor administrativo do hospital, Lúcia Sizinando Souza, 57, aprendeu sobre a doença e nunca teve preconceito. “Eu criei meu filho aqui dentro”, menciona. Com lágrimas nos olhos, Lúcia se lembra de todas as pessoas com quem conviveu. “Eu vi tantas coisas. Nunca esqueço um menino de 6 anos que foi arrancado da família e veio para cá. Os que puderam fugiram do hospital”, diz.
Memorial resgata histórias do Leprosário de Itapuã
Fundado, em 1940, local que serviu para tratamento de pessoas com hanseníase segue praticamente isolado