Apesar da idade avançada, ele continua requisitado. São cerca de 100 mil visitantes por dia – sem contar as vésperas de datas comemorativas, quando mais de 200 mil pessoas disputam o mesmo espaço. O “aperto” compensa. Para os frequentadores, os preços, a variedade e o atendimento oferecidos nas 110 bancas não são encontrados em nenhum outro lugar. “Venho comprar de tudo aqui, pela variedade e porque posso pegar a quantidade que eu quero”, afirma Elaine Duarte, 52 anos, que enquanto fazia a feira falou sobre a sua ligação com o Mercado. “Já vim aqui com a minha avó, com a minha mãe, então é uma tradição da família. Também acho mais seguro”, observa.
A identificação dos clientes com o Mercado torna-se possível, também, graças à dedicação daqueles que estão do outro lado do balcão. Muitos vendedores contabilizam décadas trabalhando dentro do prédio. “Isso aqui é minha vida”, conta o vendedor Daniel Souza, 39, que apesar da pouca idade está há quase 30 anos no local. Hoje ele trabalha na Banca do Holandês, mas começou varrendo o chão, quando ainda era uma criança. “Naquela época podia, agora não”, faz questão de ressaltar.
Ao cliente que passa pela sua banca, Souza faz observações que vão desde a qualidade do bacalhau, especialidade da loja, até as restrições da indústria pesqueira norueguesa com a denominação do pescado. Tudo para fazer com que o consumidor se sinta em casa. “Às vezes o cliente prefere que a gente escolha o produto. O atendimento do Mercado é o grande diferencial para as grandes empresas”, explica.
As paredes que abrigam a memória de Porto Alegre também atraem turistas em busca de um dos símbolos culturais da cidade. Com a câmera fotográfica em mãos, Géssica Czuy, 27, Taciane Jagher, 22, e Patrícia Almeida, 24, de Pitanga, no Paraná, aproveitaram a primeira visita à Capital – onde participam de um congresso – para passear pelo local. Além de muitas fotos, vão levar para a casa pacotes de erva-mate comprados no Mercado. “Vou levar para o meu avô, que é gaúcho. Acho que ele vai ficar contente, porque faz anos que ele saiu do Rio Grande do Sul e foi para o Paraná”, conta Taciane.
“Se você me encontrasse até hoje de manhã, eu ia dizer que a cidade era feia. Agora minha concepção mudou, muito em razão do Mercado”, ressalta. Segundo ela, o espaço amplo e bem preservado fez lembrar lugares públicos semelhantes em Buenos Aires e Montevidéu. “Já conheci alguns mercados municipais e esse é um dos melhores”, constata a visitante.
Celebração especial está marcada para sexta-feira com apresentações musicais e bolo | Foto: Tarsila Peraira
"Eu preferia o Mercado antigo", diz autor de livro
Comerciante no local por 28 anos, o hoje professor de curso técnico Cesão Miranda, 57, lança neste sábado o livro “Mercado Público Central de Porto Alegre, 1869-2012” (112 páginas). A sessão de autógrafos inicia às 10h30min, no Quadrante III. A obra traz informações e imagens do prédio histórico desde os seus primórdios até a atualidade, além de abordar as mudanças ocorridas no seu entorno desde a criação do Mercado - como a construção do Edifício Leão e da Galeria Chaves. “O público vai estar lendo e, ao mesmo tempo, se localizando”, avalia Miranda.
O autor começou a frequentar o Mercado Público em 1979. Ainda hoje costuma passear pelo local, mas se pudesse voltar no tempo, o faria. Apesar de acreditar que as obras de melhorias eram necessárias, ele afirma que o local possuía, em épocas anteriores, uma essência bem particular. “Eu preferia o Mercado antigo. Era aquele apinhado de bancas, uma em cima da outra, não eram essas bancas espaçosas de hoje”, conta. “Ele tinha uma essência própria dele: as mercadorias a granel, o cheiro de peixe, das frutas. Era uma coisa muito gostosa.”
As paredes que abrigam a memória de Porto Alegre também atraem turistas em busca de um dos símbolos culturais da cidade | Foto: Tarsila Pereira
Música e bolo para o público
As comemorações pelos 143 anos do Mercado Público iniciam às 13h desta sexta-feira. A primeira apresentação será do Quarteto de Cordas de Porto Alegre. Em seguida, será a vez do grupo de música alemã Munich (14h20min), Tchê Piazito (15h), Homem Banda (16h) e Imperadores do Samba (17h). Às 17h40min, será cantado o Parabéns, com direito a bolo para o público. A programação é realizada pela Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (Smic).
Ao longo das décadas, o Mercado Público sofreu diversas transformações. Em 1912 foi construído o segundo pavimento para abrigar escritórios comerciais e industriais e repartições públicas. O imóvel é tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre desde 1979.
Além da venda de peixe, verduras e demais especiarias, o Mercado Público tornou-se palco para manifestações culturais e comunitárias. O segundo pavimento costuma abrigar também feiras de material escolar, antiguidades, discos de vinil e revistas em quadrinhos. Sem contar as cafeterias, bares e restaurantes que estão integradas ao cenário há décadas - entre eles a Banca 40, o Gambrinus e o Bar Naval, recentemente reaberto. O Mercado Público funciona de segunda a sexta-feira, das 7h30min às 19h30min e sábados das 7h30min às 18h30min.