Mais de 50% dos alunos da escola rural são das classes D e E. Quase um terço dos pais desses alunos nunca estudou ou não chegou a completar a 4ª série do ensino fundamental. Quarenta e nove por cento deles já reprovaram de ano. O índice é ainda mais alto (66%) entre os alunos da classe E.
Os dados são de uma pesquisa apresentada nesta quinta-feira pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) que avaliou a situação das escolas rurais de dez estados brasileiros. Apesar das condições desfavoráveis, 56% das famílias acreditam que o aluno vai chegar ao ensino superior e 99% dos alunos disseram que seus pais “falavam para ir para a escola e não faltar às aulas”.
A maior dificuldade apontada pelos alunos para frequentar a escola é o problema com transporte. Do total dos entrevistados, 44% vai à escola de ônibus e 43% a pé. Quase um terço das crianças trabalham, a maior parte (92%) “ajudando os pais na roça” ou “com o gado”.
Os alunos e professores entrevistados avaliam a escola como ótima ou boa (50%) e 24% acreditam que ela seja ruim ou péssima.
Faltam bibliotecas
Entre as 50 escolas de dez estados que participaram da pesquisa, 70% não tinham biblioteca, 66% não contam com computador e 92% não têm acesso à internet. A única ferramenta pedagógica que foi encontrada em todas unidades e em boas condições de uso foi o quadro negro. Mais de 70% ainda utiliza o mimeógrafo para reproduzir materiais como provas e exercícios.
A pesquisa foi desenvolvida pelo Instituto Paulo Montenegro, braço do Ibope. O presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Carlos Eduardo Sanches, defendeu que os resultados apontados pela pesquisa são consequência do descaso com a educação a partir da priorização das escolas urbanas.
“Na década de 90 a educação no campo foi pensada de maneira equivocada. Priorizou-se o transporte escolar dessas crianças para a cidade e muitas escolas foram fechadas”, afirmou. Segundo Sanches, muitos municípios fazem essa opção porque os custos para manter uma escola aberta são altos já que geralmente são unidades com poucos alunos.
“Hoje os municípios têm um gasto enorme com transporte escolar quando esses recursos poderiam ser investidos em capacitação desses professores, equipamentos e infraestrutura”, comparou.
Rosa Neide de Almeida, representante do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), apontou que a situação precária das escolas do campo são consequência da priorização, por parte dos gestores, das escolas da cidade. "A própria linguagem nessas escolas é distanciada da realidade do campo", disse.
A pesquisa traz também alguns dados sobre a organização da escola. Metade delas não possui diretor e em 44% delas todos os alunos estavam em classes multisseriadas. Nesse formato, alunos de diferentes idades estudam em uma mesma classe, aprendendo conteúdos diferentes de acordo com a série em que estão. Esse modelo é muito comum nas escolas rurais já que elas contam com poucos alunos e há dificuldade de acesso de professores em grande número.
Dos professores que fazem parte da pesquisa, mais de 60% tinham curso superior. Ao mesmo tempo, 66% deles recebiam de um a dois salários mínimos por mês. Com raras exceções, as redes de ensino declararam que os seus educadores não tinham recebido uma capacitação diferenciada para trabalhar com classes multisseriadas.
Segundo o MEC, os critérios técnicos do exame exigem um mínimo de 20 alunos por turma para que a prova seja aplicada. A baixa participação das escolas rurais ocorre porque na maioria delas as turmas têm um número reduzido de estudantes por série.
O diretor de Concepções e Orientações Curriculares para a Educação Básica do MEC, Carlos Artexes, afirmou, durante o lançamento da pesquisa, que a pasta tem uma estrutura dentro da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) para pensar as questões do campo. “Não existe uma solução pronta para a educação rural”, destacou. Segundo Artexes, o primeiro passo é assumir “o compromisso de chegar no campo” e o papel do MEC é de articulador, garantindo apoio técnico e financeiro às redes de ensino.
Metade dos alunos de escolas rurais é das classes D e E
Pesquisa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil avaliou a situação das escolas rurais em estados