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Muita tecnologia e pouca segurança marcam concepção do Titanic

Naufrágio, que completa 100 anos, contribuiu para normas de navegação

Notícia informa o naufrágio em 15 de abril
Notícia informa o naufrágio em 15 de abril Foto : Mauro Schaefer / Reprodução / CP
Símbolo da ousadia humana e do orgulho da engenharia náutica, o RMS Titanic foi concebido com o título de “navio que não afunda”, como exibia um folheto publicitário da companhia White Star Line em 1910, quando a embarcação era construída. Mas o sonho de tornar-se um marco para a navegação mundial ruiu. Todo o investimento em luxo e tecnologia sucumbiu à falta de segurança. No final da noite de 14 de abril de 1912, quatro dias após a partida de Southampton, na Inglaterra, com destino a Nova Iorque, o transatlântico afundou após se chocar contra um iceberg, levando consigo a vida de cerca de 1,5 mil pessoas nas águas gélidas do Atlântico Norte.

Para o início do século 20, o Titanic tinha a maior e melhor estrutura para navegar: apesar de ter 20 botes salva-vidas, com capacidade para acomodar 1.178 pessoas – número que estava dentro da regulamentação inglesa da época. No entanto, a determinação era insuficiente para garantir segurança aos passageiros, segundo o advogado especialista em Direito Marítimo Arthur Rocha Baptista. “Além de serem poucos botes, eles eram mal desenhados. Como iam navegar em águas muito geladas, precisavam ser total ou parcialmente cobertos”, explica o advogado.

Depois da tragédia, as medidas de segurança precisaram ser revistas. Segundo Baptista, uma delas foi a criação da Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar (em inglês Safety of Life at Sea), que estabelece novas normas para navegação. “Entre as determinações está a de que todo o navio precisa ter um número adequado de botes com espaços para comportar todos os passageiros presentes”, informa Arthur. Além disso, é obrigatório que sejam realizados semanalmente testes nos botes, simulações de abandono do navio e treinamento intensivo para tripulação. O código foi elaborado pela Organização Marítima Internacional em 1914 e desde então vem sofrendo alterações. A última versão oficial foi publicada em 1974.

Derrota da tecnologia

O naufrágio do Titanic pode ser caracterizado como a maior tragédia marítima de todos os tempos pelo grande número de vítimas e porque simbolizou a derrota da alta tecnologia na época, acredita a professora de História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Claudia Musa Fay. “Na Segunda Guerra Mundial, milhares de navios afundaram. Mas em função de bombardeios. O Titanic estava sozinho naquele oceano quando bateu no iceberg. E por ser um símbolo de tecnologia e segurança, ninguém acreditava que aquilo podia falhar. O fato da derrota é o que deixou a marca”, explica.

Projetado pelo conceituado arquiteto naval Thomas Andrews, o Titanic foi construído no estaleiro irlandês Harland & Wolff. Pesava mais de 40 mil toneladas, media 268,8 metros de comprimento e 28,2 metros de largura. Impulsionado pela Revolução Industrial, Andrews planejava oferecer o melhor transporte e serviço aos passageiros. A embarcação era constituída de ferro e aço, e tinha um artigo de luxo para a época: eletricidade em todos os aposentos. “O uso da eletricidade começou, de fato, no final do século 19, mas foi um processo lento. Algumas pessoas que estavam no navio não tinham luz em casa, por exemplo”, conta Claudia.

As instalações espalhadas pelo navio incluíam piscina, salas de jogos, bibliotecas e academia, áreas comuns atualmente em grandes cruzeiros. Porém, uma verdadeira usina operava no casco. Lá, trabalhadores queimavam toneladas de carvão para produzir o vapor de alta pressão que impulsionava as máquinas.

Apesar dos avisos regulares de que havia icebergs no oceano, o capitão do navio, Edward Smith, manteve a rota. Por volta das 23h40min de 14 de abril, os vigias avistaram o grande bloco de gelo submerso no mar. Houve a tentativa de manobrar para desviar o navio do iceberg; porém, em menos de um minuto, o transatlântico colidiu a estibordo.

O Titanic tinha 16 compartimentos, e mesmo com quatro deles inundados, poderia continuar flutuando, sem riscos. Mas o rombo da colisão perfurou o casco e a água rapidamente tomou cinco compartimentos. “Apesar de toda a tecnologia, o navio era lento. Não é como o nosso carro, que viramos a direção para um lado e ele vai de imediato. Como o Titanic navegava na velocidade máxima, era impossível desviar quando avistaram o icerberg”, relata a docente.

Hábito de navegar se manteve

No início do século 20, a navegação era o único meio de transporte possível para fazer grandes trajetos. O avião começou a se popularizar como veículo somente a partir dos anos 30, na Europa. Apesar do choque diante da tragédia do Titanic, o acidente não conseguiu fazer com que a população deixasse de viajar de navio. “As pessoas ficaram com medo, é claro, mas não havia outro meio de ir de um continente para outro”, justifica Claudia.

Naufrágios em alto mar não acontecem com frequência, mas há registros de grandes embarcações que não completaram suas viagens e acabaram no fundo do oceano. O mais recente foi o Costa Concórdia, cruzeiro de bandeira italiana que submergiu em 13 de janeiro deste ano, após colidir em uma rocha nas proximidades da ilha de Giglio, na costa da Toscana. Mais de 4,2 mil pessoas estavam a bordo e pelo menos 32 morreram. “A morte no mar sempre lembra o naufrágio do Titanic. Eu estava na Itália quando ocorreu acidente com o Costa Concórdia, e apesar de serem poucos mortos, houve uma comoção muito grande. Novamente um navio que tinha toda a tecnologia possível para jamais falhar, afundou”, comenta a professora.

Imagem mostra Titanic saindo de Southampton para viagem que culminou em naufrágio | Foto: Divulgação / CP


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