Elisiane e a família moram em Santa Vitória do Palmar, no extremo Sul gaúcho. Ela é funcionária concursada da prefeitura, se casou em março, quando começou a se preparar para a primeira gravidez. Nesta terça-feira, a reportagem da Rádio Guaíba conversou com a mãe de Elisiane, Neiva Lima dos Santos, que acompanha a filha desde a última semana, quando ela sentiu as primeiras dores do parto. A bolsa da mamãe de primeira viagem havia rompido ainda na sexta-feira. Na ocasião, a família entrou em contato com a médica que acompanhava a gravidez de Elisiane, que foi orientada a seguir até o Hospital Santa Casa de Misericórdia, de Santa Vitória do Palmar. Lá, permaneceu até domingo, dia em que a equipe médica constatou ser uma gravidez de risco e buscou contato com a Central de Regulamentação de Leitos do Rio Grande do Sul na procura por um leito especializado. A partir daí, começou a maratona da gestante em busca de vaga em hospitais.
Segundo Neiva, as duas encararam mais de seis horas de viagem, mais de 500 quilômetros, para chegar ao Hospital de Novo Hamburgo, o único que disponibilizou atendimento. Elisiane chegou por volta das 17h40min na cidade e logo foi encaminhada para fazer a cesariana de urgência. As condições precárias da ambulância em que a gestante foi transportada também é alvo de questionamento dos familiares. "De Santa Vitória do Palmar tentamos leito em Rio Grande e Pelotas e não conseguimos. Fomos conseguir em Novo Hamburgo. De lá até aqui a gente sofreu muito. Eu vim com ela e uma enfermeira padrão. Levamos seis horas até aqui. Os motoristas botaram até 180 quilômetros na estrada. Minha filha veio todo tempo sofrendo, ela já estava com dores. Eu também passei mal, mas não podia dizer pra ela aquilo que estava vendo. Me segurei muito", disse à reportagem.
Neiva também falou dos netos, que ela conheceu ontem. "Um tem 44 centímetros e 1,626 quilos. O outro mede 46 centímetros e pesa 2,012 quilos.O Gustavo e o Guilherme são muito lindos", contou emocionada.
O pai de Elisiane, avô dos bebês, Elísio Fausto San Martin , fez um apelo enquanto falava da filha. "Nós precisamos pedir aos governantes do nosso Estado e do Brasil, para que parem para pensar com o que estão fazendo para a saúde do nosso povo. Há três anos, eu perdi um netinho por falta de atendimento. Estou desesperado por que, nessa agora, quase perdi minha filha e meus dois netos", desabafou. Os pais e o marido de Elisiane, Alex, estão hospedados na casa de uma das atendentes do hospital hamburguense, solidária ao drama da família.
A reportagem ouviu também o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) e o governo do Estado, que reconheceu que a escassez de recursos, falhas de gestores nas instituições de saúde, têm provocado situações semelhantes no Estado. O Cremers instaurou sindicância para apurar o caso e serão investigados os motivos que levaram Elisiane viajar até a região Metropolitana procurando um leito. A entidade entende que cabia à Central de Leitos do Estado ter aberto uma vaga em hospital público ou privado, próximo do local da residência da mulher, por se tratar de uma gravidez de risco.