Contudo, a revolução da Medicina vem acompanhada da dificuldade de acesso ao serviço de saúde. “Os avanços colaboram para o aumento da longevidade, mas muitas dessas pessoas que vivem mais têm doenças crônicas que pressionam o serviço de saúde. Com isso, há falta de leitos e superlotação de emergências”, comenta Aguiar.
Esse conflito acaba ocasionando estresse no exercício da Medicina. “Estamos assistindo a um aumento do número de doenças relacionadas à pressão que os médicos passam”, diz Aguiar. O profissional também precisa lidar com a necessidade de atualização cada vez mais rápida. “A pessoa necessita de educação permanente, em uma velocidade muito forte. O paciente é diferente de décadas atrás. Ele chega ao consultório com muitas informações e exigências. O desafio do médico é estar bem informado para atender a isso”, resume.
Dos médicos que enfrentam essas dificuldades no Rio Grande do Sul estão 15.526 homens e 9.670 mulheres. Desses, mais da metade atuam em unidades de saúde da Capital. Do universo de médicos no RS, 19.443 são especialistas: 2.114 são pediatras; 1.985, ginecologistas; 1.732, cirurgiões-gerais; e 1.105, psiquiatras.
O presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes, destaca que a profissão é cada vez mais reconhecida pela população. “Tanto é que 40% dos eleitores consideram a saúde como a principal demanda”, diz.
No entanto, essa importância dada pela sociedade não tem se refletido em bons salários e condições de trabalho adequadas. Na área privada, as operadoras de planos estão sendo pressionados a repassar honorários maiores aos médicos, já que cobram cada vez mais dos clientes. Outra reivindicação é o fim das limitações a exames e procedimentos. “Isso interfere na autonomia do trabalho médico”, garante. Argollo se queixa que o Sistema Único de Saúde (SUS) também não concede salários justos à categoria. “O valor é incompatível com o mercado”, observa.
Outra questão é a distribuição de profissionais pelo Rio Grande do Sul. Argollo informa que a recomendação do Ministério da Saúde é de que exista um médico para cada mil habitantes. No RS há o dobro. Porém, em algumas cidades faltam representantes da classe.
Vocação surge na infância
Um dos destaques na área de transplantes é José Camargo, 66 anos. Aos 6, ele realizava as primeiras operações nas bonecas da irmã, em Vacaria, onde nasceu. “Ela ficava louca. Destruí vários brinquedos.” Aos 16, veio para Porto Alegre e, pouco tempo depois, começou a estudar na Faculdade de Medicina da Ufrgs.
No quarto ano de graduação, se inscreveu em um internato no Pavilhão Pereira Filho e passou a acompanhar o trabalho do médico Ivan Faria Corrêa. “Observava tudo o que ele fazia e treinava em casa.” No dia em que um residente faltou, foi chamado para entrar em campo. Amarrou uma artéria com um dedo só, o que já havia reproduzido diversas vezes em uma corda na cadeira do quarto. “O meu mestre parou a cirurgia para dizer que era assim que se dava um nó. Desde então, eu não parei mais.”
Já foram mais de 30 mil cirurgias de tórax e 410 transplantes. O médico foi pioneiro na área e o primeiro a realizar transplante de pulmão com doadores vivos fora dos EUA (em 1999 operou Henrique Busnardo, de 12 anos). Também criou a Central de Transplantes da Santa Casa.
O lado mais intenso da profissão
Representante dos médicos em um dos setores mais críticos da saúde pública, Gerson Pereira, 48 anos, não desiste da área. Enfrentando as adversidades da falta de leitos, ele já atua há 22 anos na Emergência do Hospital de Clínicas, em Porto Alegre. “Estou aqui por um compromisso de tentar melhorar. Já tive oportunidade de sair, mas não se pode abandonar um barco em plena tempestade”, explica. O emergencista garante que não há tarefa mais árdua para um profissional da Medicina do que enfrentar a realidade da superlotação.
“Vivemos uma situação de caos e de colapso, por falta de investimentos”, afirma. O problema de atender até o triplo da capacidade de internação faz com que o especialista tenha que escolher todos os dias entre um paciente e outro. Esse tipo de situação provoca estresse e altera a rotina do sono, além de causar outros problemas à saúde dele e de seus colegas. “A área tem maior índice de doenças mentais e de outras enfermidades”, exemplifica Pereira. Ele garante que, se soubesse que trabalharia nessas condições quando entrou na Faculdade de Medicina da Ufrgs, em 1982, não escolheria essa especialidade. “Eu gosto muito de lidar com casos graves. É onde a Medicina está em sua maior intensidade, porém, há 20 anos não tinha essa superlotação”, comenta. Apesar de tudo, ainda existem satisfações que motivam a sua profissão. “Quando fazemos um diagnóstico difícil de uma pessoa e depois vemos ela seguir a sua vida, é gratificante”, observa Pereira.
Clínica-geral faz a diferença
“Quando a doutora Isabela chega aqui em casa me sinto melhor. O trabalho dela me ajuda a viver mais.” A declaração do motorista aposentado Carlos Acadrolli, 60 anos, que periodicamente é atendido em seu apartamento, na rua Rui Barbosa, no Centro de Frederico Westphalen dá a ideia da importância do acompanhamento médico feito nas residências de pessoas atendidas por meio do programa Estratégia da Saúde da Família (ESF).
A clínica-geral Isabela Xavier Schneider, lotada na Unidade Básica de Saúde do bairro Aparecida, visita pelo menos 20 pessoas em suas moradias. “Começamos a acompanhar de perto a saúde de Carlos no início de setembro. A possibilidade de irmos ao encontro dos pacientes permite uma atenção mais ampliada da família, do ambiente em que vive, garantindo orientações quanto à prevenção e à recuperação”, observa a médica.
Segundo Isabela, esse é um trabalho importante e que garante melhores condições de vida a pessoas que possuem algum problema de saúde e que permanecem em suas residências. “Carlos tem problemas nos pés e dificuldade para caminhar”, cita. O motorista aposentado sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) há quatro meses e precisa de acompanhamento efetivo, com verificação da pressão arterial, realização de exames e prescrição de medicamentos. Segundo ela, o deslocamento do paciente até uma unidade de saúde gera desconforto. “O atendimento humanizado nas residências é de grande importância”, sintetiza a médica. Em Frederico Westphalen, a assistência também mobiliza os agentes de saúde. Contudo, há necessidade de agendamento prévio da visita domiciliar.
Agostinho Piovesan, Gisiane Andrade e Karina Reif