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O dia na Farrapos, avenida emblemática de Porto Alegre

Com quase 5,5 quilômetros, logradouro corta no mínimo três bairros e vivencia diferentes realidades

Avenida corta no mínimo três bairros e vivencia diferentes realidades
Avenida corta no mínimo três bairros e vivencia diferentes realidades Foto : Samuel Maciel
* Por Henrique Massaro e Mauren Xavier

O barulho dos veículos é quase ensurdecedor e gera tanto incômodo quanto a fumaça deixada por eles num trânsito que toma conta da avenida Farrapos, de extremo a extremo, durante boa parte do dia. Considerado um dos principais acessos ao centro de Porto Alegre, a via recebe um fluxo intenso. São carros, motos, ônibus e lotações, brigando, entre buzinaços e arrancadas, por um espaço. Os privilegiados, mas nem tanto, são os ônibus, que contam com um corredor próprio. Porém, dependendo do horário, o engarrafamento se forma também nessas faixas. Pode assim parecer quase uma veia entupida, se se pensar ainda na quantidade de passageiros que estão no aguardo das suas linhas. Isso acontece em função de uma das características da avenida, que é ser um elo com um extremo da cidade, a zona Norte, e de acesso a cidades metropolitanas.

Isso é um pouco do panorama dessa emblemática Farrapos no início da manhã de uma quinta-feira de sol forte. Porém, ela é recheada de outras características que a tornam mais curiosa. A paisagem é pincelada, por exemplo, por pichações, que chegam a tomar conta de fachadas inteiras de edificações, assim como a elevada quantidade de prédios vazios ou à espera de novas ocupações, como indicam as placas de vende-se e aluga-se. Um caso simbólico está localizado no cruzamento da avenida Polônia, onde um prédio parece se desfalecer aos olhos de quem passa, coberto de pichações e de concreto à mostra. Esses problemas ficam em maior evidência diante da claridade do dia. Além disso, com o trânsito em marcha lenta, é fácil para qualquer um olhar pelos vidros e se deparar com a paisagem degradada que vai tomando conta quadra após quadra.

Apesar de ter um perfil mais comercial, muitos prédios da avenida são residenciais. Porém, a maior parte de suas janelas permanece fechada, mesmo durante o dia, com poucas roupas em varais improvisados, aumentando a sensação de abandono.

Um exemplo desse sentimento é a obra da trincheira da avenida Ceará, onde a Farrapos termina. A grandiosidade do empreendimento, que colocaria fim aos intensos engarrafamentos, comuns do início e fim do dia, segue lenta. Em uma parada no local é possível ver alguns trabalhadores em ação, mas não mais do que 15, o que é aparentemente pouco pela dimensão da obra. É por ali que passa boa parte dos veículos vindos das rodovias BR 116 e Freeway.

Seguindo pelo caminho da Farrapos, é possível deparar-se com o cruzamento da grandiosa Estação da Trensurb. “Aqui o movimento é grande mesmo das 7h às 8h30min. Muita gente vindo de fora para trabalhar na Capital. Depois dilui um pouco, aumentando no final do dia”, comenta o funcionário da Trensurb, Moacir Figueiredo. A estação é importante pela quantidade de linhas de ônibus que passam ali, como é possível ver pelas marcações na parada.



Foto: Samuel Maciel

A partir dali ganha destaque o comércio característico da Farrapos: automobilístico. São dezenas de lojas que permitem desde a compra dos carros até peças, ou serviços de consertos e reparos. Os estabelecimentos estão quase lado a lado, o que facilita para os clientes. O gerente de uma das lojas, Everton Correa, comenta que o fluxo é satisfatório, tanto que o estabelecimento existe há quase 12 anos. “Há um perfil específico de serviços automotivos. Tanto que é uma referência na cidade, assim garante um movimento muito bom para os negócios durante a semana”, avalia. Em meio à chegada de mercadorias, ele revela uma curiosidade ligada ao comércio da avenida. “O lado direito (no sentido centro-bairro) tem o comércio mais deficitário. Basta ver que o maior número de lojas está fechado. Acho que é o lado que as pessoas estão indo embora e daí não param.” Os estabelecimentos de itens automobilísticos dividem espaço, em algumas quadras, com agências bancárias e postos de combustíveis. Em número reduzido, há também lojas de produtos diversos e restaurantes.

Seguindo ainda em direção ao Centro, é possível ver a praça Pinheiro Machado, quase em frente ao Terminal de ônibus da Cairu. O verde corta um pouco da paisagem fria de prédios e das pichações. Na parte do dia, o barulho mais intenso é o das crianças que ocupam a escola municipal Patinho Feio. Protegida por uma grade, o espaço é colorido e agitado com o corre-corre dos pequenos. Porém, no entorno a sensação é de insegurança, como revela uma das funcionárias da escola. “A praça fica muito vazia. Há uma estrutura que era da prefeitura e foi invadida. Existem, ainda, alguns assaltos e pessoas consumindo bebidas”, revela, sem se identificar. Mesmo assim, adianta que a situação começou a mudar nos últimos dias com a presença de uma equipe da Brigada Militar no terminal de ônibus.

Curioso ou não, ao lado da estrutura que teria sido invadida, há brinquedos, que, no meio da manhã, eram usados por uma mãe e sua filha. Moradora de Canoas, Suelen Machado conta que ir ao lugar ocorreu “ao acaso”. Com a filha Marina, de 4 anos, ela lembra estar aguardando o marido, quando decidiu ir ao local. “Viemos aqui para aproveitar esse tempinho. A praça me pareceu muito bonita, mas não vi ninguém brincando. Mesmo assim ela quis vir brincar um pouco”, relata. Mas basta alguns minutos para a primeira impressão mudar. A grama alta, o odor de urina e lixo espalhado também fazem parte da paisagem.

A partir do cruzamento com a Ramiro Barcelos é possível notar grande presença de moradores de rua e de recicladores. Não é difícil ter que reduzir a velocidade do veículo porque há alguém carregando uma carroça e recolhendo resíduos. Enquanto a equipe caminha, um morador de rua grita algumas palavras sem sentido e, sem resposta, demonstra irritação e atira restos de comida, indo embora poucos minutos depois.

Avançando alguns metros, na esquina da rua Santo Antônio, é outro tipo de movimentação que atrai o olhar. Uma fila de homens e mulheres praticamente contorna um prédio. Ao ir ao encontro, é possível entender a razão. Pelo horário, perto do meio-dia, o Restaurante Popular está abrindo as portas. Um morador do entorno aproveita, porém, para reclamar da situação. “Eles chegam cedo e ficam ocupando a calçada. É difícil de ter um negócio ou morar aqui”, desabafa ele, indo embora sem se identificar.

Agora, quase ao final do percurso, em direção ao Centro, está o Viaduto da Conceição, conhecido como ponto de reunião de muitos moradores de rua. Porém, na manhã desta quinta-feira a situação é diferente. A presença de dois brigadianos parece afastar uma possível ocupação do local. Inclusive, num dos cantos estão diversos itens que devem compor uma residência improvisada de um morador do local, mas não há ninguém. É como se fosse uma casa abandonada, não tão diferente da avenida.