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O menino que se alfabetizou lendo o Correio do Povo

Garoto aprendeu a ler com o avô

Ferreira é lembrado pelos familiares e amigos pela fidelidade ao Correio
Ferreira é lembrado pelos familiares e amigos pela fidelidade ao Correio Foto : Mauro Schaefer
Quando os braços franzinos de Carlos Henrique Maahs Filho ainda nem possuíam envergadura suficiente para segurar um jornal, o menino, então com 4 anos de idade, aprendeu a ler nas páginas do Correio do Povo. A cada quatro meses, em uma leitura diária, ele conhecia 120 histórias diferentes dentro da sala da casa do seu avô Carlos Ivo Maahs, em Novo Hamburgo. A oferta de informações feitas pelo avô contribuíram também para que ainda pequeno Carlos Henrique se alfabetizasse em inglês. “Meu avô teve muita atitude em trazer informação para dentro de casa e, como eu passava muito tempo na casa dele, sempre fui estimulado”, conta.

O encontro com as palavras começou nas páginas amareladas do Correio do Povo em meados da década de 70, quando o jornal era veiculado no formato standard. Carlos Henrique chegava na casa dos avós e, ao atravessar a sala, já procurava o jornal, sempre acomodado em um dos braços do sofá.

O tapete cinza, que estampava desenhos geométricos coloridos, era escolhido para apoiar o jornal. O avô selecionava uma notícia para que o neto contasse a história. Dessa forma, unindo cada uma das letras, os murmúrios começaram a ganhar sentido e serem pronunciados por Carlos Henrique, acompanhado ao longe pelos olhos atentos do avô.

Ao mesmo tempo, ele recebia outro jornal, geralmente o The Washington Post ou The New York Times, ambos veiculados em inglês. Precisava também contar uma das histórias escolhidas pelo avô nas páginas estrangeiras. “Ele escolhia uma matéria do Correio do Povo e outra parecida de um dos jornais estrangeiros e eu tinha a missão de contar as duas histórias do que estava escrito. Era uma aventura”, recorda.

O menino precocemente alfabetizado em duas línguas também participou do programa Guaíba Criança, da antiga TV Guaíba. A sua diversão, no entanto, era ler o jornal pelo desafio de conhecer novas palavras. “O Correio era lindo, tinha charme nas fontes e arte na notícia. Era bonito de ler”, relembra o então supervisor de atendimento de uma das agências bancárias da Caixa Econômica Federal em Porto Alegre, hoje com 44 anos. Após quatro décadas os formatos mudaram, o avô faleceu e os idiomas conhecidos se expandiram, mas as memórias da infância seguem vivas para Carlos Henrique. “Foi um tempo muito bom”.

Segredo da longevidade está no exercício da mente com a leitura

O assinante Crescêncio Teotonio Ferreira tem como meta de vida alcançar os 120 anos. Leitor assíduo do Correio do Povo, ele, atualmente com 101 anos, afirma que se a visão e a audição permitirem, não largará o hábito no início do dia. O entregador, que colocava o jornal por baixo da porta do apartamento, no bairro Cristal, se adaptou às necessidades do cliente. Agora, a edição fica presa em um prendedor colado na porta, para que Ferreira não precise se abaixar. Entre 5h e 6h da manhã, aguarda ansioso a edição diária, mas espera o dia clarear por completo para iniciar a rotina. A visão já não é mais a mesma de quando lia a versão standard e exige luz natural.

Ferreira não frequentou a escola. Aprendeu a ler e escrever em cursos e com a esposa, que era professora. Ao tomar o café da manhã, passa rapidamente pelas principais notícias e no decorrer do dia vai degustando as matérias uma a uma. A editoria de Política é a mais prestigiada, mas a Polícia e a Economia também despertam interesse.

Natural de Herval, Ferreira é lembrado pelos familiares e amigos pela fidelidade ao Correio do Povo. Para o filho Carlos Leon, o segredo da longevidade do pai é o exercício da mente proporcionado pela leitura. Mesmo com aparelho, tem dificuldades com a audição, mas a memória não falha nem mesmo na hora de lembrar o aniversário dos filhos. Bisavô por duas vezes e com 16 netos, Ferreira passou o hábito da leitura para as outras gerações da família. O apreço é apenas pelo jornal e pelo consumo das notícias pela televisão.

“Lembro que na infância o pai lia o jornal e depois eu e meus irmãos brigávamos para ver quem pegava primeiro para ler. Sempre tinha um que pegava e saía correndo para se trancar no banheiro. Acho que precisaríamos de pelo menos mais duas assinaturas”, brinca Leon, que garante que a atividade também é apreciada pelos netos. No ano passado, foi internado por algumas vezes e durante estada no hospital os filhos precisavam levar o jornal todos os dias no início da manhã. Por alguns anos, ajudou a alimentar o mesmo hábito em outros assinantes. Foi distribuidor do CP em Pedro Osório, na região Sul do Estado.