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Pais das vítimas da tragédia de Erechim fazem novo protesto

Acidente com ônibus escolar matou 17 pessoas em 2004

Pais e familiares das vítimas protestaram em frente ao Fórum de Erechim
Pais e familiares das vítimas protestaram em frente ao Fórum de Erechim Foto : Alan Dias / Especial CP
Um grupo de pais, familiares e amigos das vítimas do ônibus escolar que caiu na barragem da Corsan de Erechim, em setembro de 2004, matando 16 estudantes e uma monitora, voltaram a realizar uma manifestação na manhã desta quarta-feira. O ato ocorreu em frente ao Fórum do município do Alto Uruguai.

Este é o terceiro protesto desde 3 de setembro. Pais afixaram faixas e cartazes nas grades do prédio. No chão, havia uma bacia com bonequinhos e um ônibus de brinquedo. Depois, a bacia, cheia de água, simulou o local do acidente: os pais utilizaram o coletivo e os bonequinhos, simbolizando as vítimas, boiando na água.

Antes disso, Dilceu Pertili, que perdeu um casal de filhos – uma adolescente de 16 anos e uma adolescente de 12 anos -, foi até seu carro e retornou trazendo nas mãos um caixão pequeno, branco, e depositou-se ao lado da bacia onde estavam os bonequinhos e o ônibus de brinquedo. Ao lado – velas ardiam reverenciando as vítimas.

Dilceu Pertili é claro quanto à sua reivindicação e manifestação de dor nove anos depois da tragédia: “Nós queremos um julgamento e que os responsáveis pela tragédia sejam punidos para que outras pessoas não passem pelo que nós estamos passando”. Mesmo sabendo que a sentença inicial foi desqualificada pelo Tribunal de Justiça (TJ) do Estado, reformulação acolhida e confirmada pelo Tribunal Superior de Justiça, o pai que perdeu dois filhos é incisivo: “Nós queremos que a justiça local marque a data do julgamento. Se a decisão do Tribunal de Justiça não veio para Erechim (que é o que estaria faltando para marcar a data do julgamento) que a justiça daqui peça!’, observou o pai.

15 dias ou greve de fome

Dilceu Pertili faz outra observação. “Vamos dar um prazo de 15 dias para a justiça marcar o julgamento. Não importa se não vai mais ser pelo júri popular. Nós queremos um julgamento”. E avisa: “Se em 15 dias não sair a data do julgamento, vamos voltar aqui, vamos nos acorrentar nas grades do Fórum e faremos uma greve de fome até que saia o julgamento”, afirmou. Ele recém havia terminado de afixar nas grades do Fórum uma enorme faixa de cabeça para baixo. “Está assim porque inverteram o processo”, dizia a quem observava que a faixa estava fixada de cabeça para baixo.

Marinês Modzinski perdeu um filho de 12 anos no acidente. “Não quero mais falar de justiça. Na verdade estou cansada de pedir justiça”, dizia, reiterando que de sua parte não tinha mais interesse em ser recebida por qualquer autoridade do judiciário. Ela também afixou um cartaz nas grades onde se podia ler: “Senhores desembargadores de Porto Alegre e Brasília. Obrigado por tudo. Pela Justiça”, numa clara manifestação de ironia sobre a decisão de reformar a sentença local em primeira instância.

Já Rosângela Gelisnki perdeu um filho de 14 anos. “O sonho dele era fazer Mecatrônica. Hoje ele já estaria formado”, dizia. Segundo Rosângela, que hoje trabalha como costureira, “eu quero saber quem é o culpado. Alguém tem que pagar porque alguém ‘matou’ nossos filhos”. Ela também abordou a indenização financeira que parte das famílias já recebeu. “O dinheiro não importa. Eu quero ver alguém responsabilizado pela justiça”, dizia. De acordo com Dilceu Pertili cada pai recebeu cerca de R$ 300 mil e cada mãe o mesmo valor - por vítima na tragéda”. No seu caso o valor chegou a cerca de R$ 1,3 mil já que ele e a esposa perderam um casal de filhos.

Justiça

Há alguns dias a Assessoria de Imprensa do Tribunal de Justiça do Estado distribuiu uma nota recordando o caso no âmbito da justiça. De acordo com a nota “no dia 30 de dezembro 2009, em 1° grau, o juiz substituto da 1° vara criminal Antonio Carlos Ribeiro, decidiu que o processo deveria ir a Júri Popular. Os réus recorreram ao Tribunal de Justiça do RS.

Os desembargadores da 1° Câmara Criminal desclassificaram a sentença e negaram pedido de encaminhamento dos réus ao Tribunal do Júri. O MP entrou com um novo recurso junto ao STJ que deverá agora colocar em sua pauta para apreciação e julgamento do mesmo. Só depois disso é que poderá retornar o processo com sua decisão sobre este novo recurso à Justiça do Rio Grande do Sul. Agora, os réus serão julgados na 1ª Vara Criminal de Erechim. As partes devem, primeiro, ser informadas para, então, ser marcada a data do novo julgamento”, completa a nota do TJRS.

Agora, informações da 1ª Vara Criminal do Fórum de Erechim, davam conta de que a mesma ainda não havia recebido nenhuma comunicação oficial do STJ sobre sua decisão, com o que, nenhum novo passo, por enquanto, pode ser dado pelo justiça de Erechim.

O caso

No dia 22 de setembro de 2004, por volta das 7h, a cidade de Erechim foi acordada com a notícia daquela que seria a sua maior tragédia em quase 100 anos de existência. Um ônibus escolar que fazia a rota que passa pela comunidade do Povoado Argenta – Km 10 e pelo KM 7, na Barragem da Corsan, ao tentar atravessar o lago da barragem, como fazia diariamente, desgovernou-se e caiu dentro das águas. O motorista, uma monitora de escola e 32 crianças e adolescentes estavam no interior do coletivo. O saldo da tragédia foi inesquecível: 17 pessoas perderam a vida.

A justiça acabou indiciando o motorista do ônibus e mais duas pessoas. Na esfera civil, o caso encerrou-se para 14 famílias. Elas receberam para dividir, cerca de R$ 13 milhões, pagos pela Corsan. O advogado que representou as 14 famílias, Irineu Gehlen, de Passo Fundo, entrou contra a Corsan, a prefeitura de Erechim, o motorista do ônibus, o proprietário da empresa de transporte e o sublocatário da linha (rota). Porém, ao obter a condenação solidária, escolheu para executar a Corsan.

O advogado confirmou que “tenho mais de 30 novas ações contra a Corsan, movidas por irmãos e avós de vítimas”. Os pais voltaram à carga para pedir o julgamento criminal com manifestações nos dias 3 e 23 de setembro e nesta quarta-feira. No Povoado Argenta, onde residiam cerca de 14 famílias que perderam filhos na tragédia, a maioria mudou-se para o centro da cidade ou até mesmo para Santa Catarina. Segundo uma das mães das vítimas, apenas três ou quatro famílias teriam permanecido na comunidade.

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