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Papais Noéis diferentes contam milagres de Natal

Histórias de solidariedade e carinho marcam a vida de quem ajuda e dos que são ajudados

Alexandre Sapiro articula projetos beneficentes
Alexandre Sapiro articula projetos beneficentes Foto : Vinícius Roratto
“Então é Natal e o que você fez?”. Parte da letra desta canção, lançada em 1971 pelo beatle John Lennon, continua muito atual, principalmente se levarmos em conta fatos que ocorrem nesta época do ano – os “milagres” natalinos. Como diz a música, as pessoas é que precisam ajudar o milagre acontecer. Exemplos de anônimos abnegados que na noite de Natal deixam a vida particular de lado para ajudar aqueles que mais precisam não faltam. Muitas vezes, a necessidade é apenas um simples abraço ou um gesto de carinho.

Milagre bate no peito

Para quem está acostumado a lidar com a tênue linha entre a vida e a morte, o milagre é algo palpável. Na época de Natal, quando as pessoas ficam mais sensíveis, este fato parece se repetir com mais frequência. O cirurgião cardiovascular Álvaro Albrecht é um que pode dizer que presenciou não apenas um, mas vários milagres de Natal. Todos com uma carga emocional grande, que fizeram a equipe vibrar com o sucesso de cada procedimento – ou o renascimento de cada paciente. No Natal deste ano, Albrecht espera por outro milagre: salvar a vida de um adolescente de 17 anos, que precisa ser transplantado com urgência.

“Tenho certeza de que alguma coisa irá acontecer no Natal”, afirma, otimista. Atuando há 14 anos, ele integra a Equipe de Transplantes do Instituto de Cardiologia, na Capital, e já perdeu a conta de quantas vezes perdeu a ceia de Natal com a família para buscar um coração doado em algum município gaúcho ou noutro Estado. “Em 2008, começamos o feriadão com um doador de Uruguaiana”, relembra o médico de 38 anos. “Foi uma grande correria, mas conseguimos salvar a vida de um paciente que (hoje) já é pai”, complementa. O doador era um jovem de 15 anos que teve morte cerebral diagnosticada após um atropelamento. O receptor tinha miocardiopatia dilatada desde a adolescência.

O doador era colorado e o receptor gremista. O gesto incentivou outras doações naquele feriadão, uma espécie de multiplicação de milagres, lembra o cirurgião. Fatos como o “coração colorado que bateu no peito gremista” emocionam e fazem Albrecht vibrar. “Perdi o Natal com a família, mas participei de muitos renascimentos”, atesta. Doações e cirurgias bem sucedidas contagiam a equipe inteira.

Mais do que brinquedos, carinho


Um sorriso de uma criança com problemas neurovegetativos é como se fosse um milagre para o tenente-coronel Paulo Ricardo Quadros, do Departamento de Informática da Brigada Militar. O oficial visita o Lar Santo Antônio dos Excepcionais o ano inteiro, mas no Natal há uma emoção a mais. “Essas crianças não querem brinquedos ou roupas”, ressalta. “Querem apenas carinho, o necessário para que se sintam seres humanos. Algo que para elas é um milagre de Natal.”

Quadros começou a visitar as crianças do lar em 2004, incentivado por familiares vinculados à instituição. À época, ele servia no 19º BPM. De lá para cá, tornou-se frequentador. Não raras vezes, encontra os amigos da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) dando conforto aos internos - a maioria deles abandonada pela família. “Sinto-me gratificado. O contato com as crianças é tem uma carga emocional muito forte. Todas são portadoras de enfermidades que, até o momento, a medicina não conseguiu resolver”, diz.

Quadros lamenta que algumas pessoas visitem a instituição e nunca mais retornem. “Realmente, muitos tomam um choque quando se deparam com os problemas dessas crianças”, atesta o militar, com 30 anos de serviços prestados à BM.

O fato de ser policial militar e ter atuado na linha de frente das ações não é entrave para Quadros. Segundo ele, a Brigada Militar não é apenas violência. Na Academia de Polícia Militar, os futuros PMs aprendem isso. “As pessoas precisam entender que dentro da farda existe um ser humano”, ressalta.

Mamãe Noel faz “a sua parte”

Elo importante da corrente solidária que se forma durante o período de Natal, a dona de casa Rosângela Puhl, 50 anos, se esforça para tornar a comunidade onde vive um pouquinho mais feliz. Ela acredita que se cada um fizer a sua parte, é possível concretizar uma grande transformação. Vestida de Mamãe Noel, ela alegra a vida de muitas crianças em Porto Alegre há mais de 20 anos. “Minha mãe já trabalhava com o serviço voluntário e hoje eu passo isso para os meus filhos”, conta. Toda a família se envolve nas campanhas de doações de brinquedos e de alimentos. “É tão fácil fazer alguma coisa pelos outros.”

Durante todo o ano, a voluntária se engaja em projetos com moradores de rua e crianças carentes. No entanto, o final do ano é o período para celebrar todas as conquistas e vestir a fantasia que tanto traz esperança. Como a dela já está antiga, aos poucos, o posto vai sendo passado para o filho Paulo Roberto Puhl Júnior, 26 anos. Ele já tem sua própria roupa de Papai Noel e ajuda a mãe nas campanhas. Assim como ele, os irmãos Priscila, 26, e Eduardo, 30, foram contaminados pelo espírito de solidariedade.

Nem mesmo o pai da família escapa. Paulo Roberto Puhl, 69, se aposentou e hoje dedica o tempo livre para fazer do bairro onde mora, o Lindóia, um lugar melhor. Ele reivindica qualidade no atendimento nos postos de saúde da região e fica atento ao trabalho dos órgãos públicos. “Sempre gostei de defender o lado mais fraco”, explica.

Milagre é uma retribuição

Da condição de ajudado, quando chegou da Romênia na época da II Guerra Mundial, o pediatra Alexander Sapiro, 66 anos, passou a ser o articulador de projetos beneficentes em Porto Alegre, onde mora há quase seis décadas. A força de vontade dele, ao reunir médicos, alunos da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e amigos, o torna o milagre de Natal de muitas famílias da vila São Judas Tadeu, na zona Leste de Porto Alegre. “Muito do que eu tinha vinha de doações. Fui engraxate e minha mãe, doméstica. A vida me deu oportunidade de dar a volta por cima e retribuir”, conta.

Há 36 anos, leciona na Faculdade de Medicina da PUCRS e trabalha no Hospital São Lucas. Desde o início da carreira, participava de muitas campanhas. No entanto, ficou decepcionado com o destino de algumas doações que, muitas vezes, eram desviadas. “Comecei a fazer sozinho, há 20 anos, alguns projetos no Centro Marista Irmão Donato. O trabalho cresceu e resolvi estender. Foi aí que criamos, dentro da faculdade, a formação solidária dos médicos.”

Sapiro também foi mentor do trote solidário, em que os aprovados no vestibular fazem doação de sangue e de mantimentos. Além disso, ele estimula a visita de alunos de Medicina à vila São Judas Tadeu. “É uma disciplina para eles conviverem com a realidade domiciliar”, explica. O Natal, portanto, é apenas uma das datas em que Sapiro atua na comunidade. Durante todo o ano, outros eventos festivos são comemorados com muita boa vontade pelos voluntários.

Apesar de todas essas boas ações organizadas e estimuladas pelo médico, ele não se sente à vontade em se vestir de Papai Noel – embora tenha uma barba branca natural – porque não quer estragar a fantasia das crianças. “Elas já convivem comigo e podem me reconhecer”, esclarece. Sapiro mal sabe que se tornou muito mais do que o “bom velhinho” para os beneficiados pelos projetos desenvolvidos. Ele é a esperança e exemplo para todos que conhecem a história do engraxate que virou médico.

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