“Todos os filmes à venda”. Os dizeres das faixas afixadas à entrada do estabelecimento resume com perfeição a situação do lado de dentro. Se antes as prateleiras viviam abarrotadas de DVDs, todos disputando espaços com os lançamentos e os mais alugados, agora, eles vão desaparecendo pouco a pouco, deixando espaços vazios. O acervo que atingiu mais de seis mil títulos, agora está com pouco mais de dois mil. Assim, pouco a pouco, uma locadora de vídeos, localizada no bairro Cidade Baixa, vai definhando.
Após funcionar por duas décadas, com uma infinidade de clientes, alguns mais fiéis e outros de ocasião, o estabelecimento encerrou as atividades no final do mês passado. “A decisão não foi fácil”, desabafa a proprietária Gilberta Ferreira. “Mas foi inevitável”, completa. E alguns números dizem tudo. Nos tempos áureos chegavam a ser alugados 500 filmes por final de semana. Atualmente, essa tinha sido a média dos últimos meses. “Fechei no prejuízo todos os meses do semestre”, diz ela, que comandou o estabelecimento nos últimos 13 anos.
O processo de fechamento do estabelecimento não é isolado. Bem pelo contrário. É um movimento que tem se repetido em outras locadoras. As justificativas são conhecidas e vieram gradativamente e com a força de um furacão. O resultado foi a devastação. Primeiro a questão da pirataria. A possibilidade de ver um filme que ainda está no cinema em vez de esperar chegar à locadora pesou muito.
Mas o impacto foi modesto. Isso porque quem gosta de cinema não se satisfaz vendo filmes com qualidade ruim. Porém, o fator que realmente impactou foi a banda larga, que permitiu assistir filmes on-line ou fazer download na Internet. E, logo em seguida, serviços de televisão oferecem possibilidades de locação direta de filmes e, por fim, os sites, tipo Netflix, com lançamentos cinco meses antes de ser colocado no mercado.
A crise nos estabelecimentos não é total. Numa tentativa de sobrevida, algumas locadoras têm buscado alternativas. A poucas quadras de distância, um estabelecimento decidiu reduzir o espaço para os filmes e dividiu as atividades com um café. Além disso, incluiu a venda de itens de decoração e presentes.
Em outro estabelecimento, dessa vez no bairro Moinhos de Vento, a movimentação é constante, apesar de inferior ao passado. “Nos últimos anos houve uma queda no número de locações, mas ainda dá para se manter”, comenta o funcionário Diogo Mello. Ele explica que uma das vantagens é o grande acervo da loja. “Há clientes que buscam os clássicos que não estão disponíveis na Internet ou em outros canais”, explica.
Para ele, esses clientes dão sobrevida às locadoras, mesmo com a difusão das tecnologias. Além das locações, outra fonte de renda do estabelecimento é a venda de títulos em duplicidade. “Temos um acervo apenas para comercialização”, explica.
Prateleiras ainda recheadas de filmes
O fechamento das lojas tem gerado oportunidades e lamentações. Com o acervo colocado à venda, alguns clientes têm aproveitado para comprar filmes mais especiais ou que têm uma ligação pessoal. “Estou aproveitando. Sou colecionador, principalmente de filmes de guerra e ação. Estou separando alguns para mim”, diz o segurança Paulo Amarante, enquanto escolhe os que vai adquirir.
Ao mesmo tempo, alguns ainda não sabem qual será a opção sem a locadora. Raquel Pinheiro Medeiros não esconde a tristeza. Desde 2008, quando se tornou cliente, semanalmente selecionava filmes para assistir nos momentos de folga. “Passava muito tempo aqui, porque ficava entre as prateleiras escolhendo filmes. Além disso, sempre tinha alguém indicando ou não determinados títulos”, comenta.
A troca de informações, as visitas semanais e as “recomendações” são alguns dos hábitos que os frequentadores não vão esquecer. Na maioria das vezes, os clientes entraram na locadora querendo um título e acabavam levando, não um, mas dois ou três filmes completamente diferentes da busca original, por recomendações ou comentários dos outros frequentadores.
E, em meio a números e histórias, há algumas curiosidades. Um único cliente locou, em 17 anos, 3,1 mil filmes. Considerando o período, assistiu a um filme a cada dois dias. Isso ininterruptamente conforme o cadastro.
Perto do fim, locadoras vendem filmes para compensar perdas
Muitos estabelecimentos colocaram todo o acervo para comercialização