"Sou contra o discurso de que a passeata é alienação. O desbunde, a felicidade também são um gesto político. Mas houve um certo esvaziamento político da parada. No Brasil, houve avanço nos direitos individuais, mas a vivência homossexual ainda é repleta de preconceito, repressão. Se a pessoa acumula minorias - é negro, pobre, soropositivo - a realidade é ainda mais sofrida", afirmou o economista Eduardo Sá, de 28 anos, um dos fundadores dos Pink Blocs.
O grupo tem como símbolo uma matrioshka nas cores do arco-íris, alusão ao fato de a Rússia ter aprovado recentemente lei que proíbe a "propaganda" de relações sexuais "não tradicionais" para menores de idade. Eles afirmaram que não querem polemizar com os Black Blocs. "Nos inspiramos nos Black Blocs. Não há conflito com eles. Somos um grupo de apoio, respaldo e um certo respeito pelo que eles têm feito", afirmou o designer Guilherme Altmeyer.
O deputado federal Jean Willys (Psol-RJ) concorda com a importância de "politizar" a parada gay. "Esse é um dia de festa, mas também de mobilização. Durante o ano todo, nossos direitos são desrespeitados. Declinei do convite de vir num carro porque acho importante politizar a parada", afirmou. Willys carregava um cartaz com a inscrição "Há gays e lésbicas entre professores. Apoiamos a greve!".
A 18ª edição da parada gay teve como lema "Somos milhões de vozes" e foi formada por 13 trios elétricos. A transexual Jane di Castro cantou o Hino Nacional na abertura do evento, que teve ainda um beijaço coletivo. Coordenador de Diversidade Sexual da prefeitura, o estilista Carlos Tufvesson lembrou, em discurso, pesquisa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República que apontou aumento de 46% as violações contra homossexuais.
"Temos de nos unir nesta luta e mostrar que é tolerância zero. Ninguém precisa ser gay para lutar contra a homofobia. Todos podem e devem lutar." O tom político, porém, não dominou a parada gay. A grande maioria do público preferiu dançar ao som de música eletrônica.
A promoter de festas GLBT Darlene Florzinha, de 24 anos, disse que é um espaço para "namorar sem preconceito" e comemorar as conquistas. Ela e a companheira, Lívia Melo, de 38 anos, têm uma filha de 6 meses, gerada por inseminação artificial. "Nossa filha tem os nossos nomes na certidão de nascimento. Foi uma grande vitória", disse Darlene, que engravidou da menina.
No trecho em frente ao Copacabana Palace, houve um princípio de tumulto quando seis evangélicos ergueram cartazes com advertências contra "fornicadores e homossexuais: o inferno os espera". "Viemos pregar o evangelho na esperança de conscientizar essas pessoas de que Deus não aceita esse estilo de vida", disse o pastor americano Bill Hamilton, de 57 anos. A polícia interveio e acalmou os ânimos.