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Porto Alegre busca seu Distrito Criativo

Região que compreende a Estação Rodoviária e o DC Shopping quer investimentos que inovem

Espaço Cultural Vila Flores promove ações com a comunidade
Espaço Cultural Vila Flores promove ações com a comunidade Foto : Ricardo Giusti / CP Memória
Se bastasse apenas a vontade dos debates, ideias, planos e sonhos, parte do território do 4º Distrito de Porto Alegre - demarcado nos extremos pela Estação Rodoviária e pelo DC Shopping (na avenida Sertório), e no meio pelas avenidas Farrapos e Benjamin Constant - já seria uma área de inteligência, inovação ou qualquer outra palavra do gênero. Os seus 594 hectares, onde vivem 31 mil pessoas, abrigariam, com qualidade de vida, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e indústria criativa, atividades não poluentes. Disporiam de soluções urbanas eficientes no trânsito, serviços públicos, coleta de lixo, energia e muito mais, com boa rede de banda larga e marca de sustentabilidade.

Essa cesta de caraccterísticas define o significado de um Distrito Criativo. Ambientes assim existem, por exemplo, na Espanha (22@Barcelona), em Nova Iorque (EUA) e no Canadá. Mas qual é o modelo do 4º Distrito? Em busca desta resposta, a Secretaria Municipal da Fazenda, que coordena o tema na prefeitura, encomendou uma análise estrutural e profunda à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). O poder público municpal tem simpatia pelo estilo 22@Barcelona, hoje um território-modelo nascido em área antes abandonada e degradada da cidade espanhola.

Coordenador do Núcleo de Tecnologia Urbana da Ufrgs, o professor Benamy Turkienicz rege uma orquestra afinada de acadêmicos entusiasmados. São cabeças de sete laboratórios e núcleos de pesquisa da universidade (Trágego e Transportes, Ensaios Geotécnicos e Geoambientais, Solar, Arquitetura, Urbanismo, Inovações Tecnológicas, Pesquisas Hidráulicas, Simulação e Modelage e Conforto Ambiental/UFCS). A missão é elaborar o Master Plan (plano principal) do local a partir das demandas da região. A área na qual atua o Master Plan foi denominada, preliminarmente, de Distrito Criativo. 

Na Sala do Conselho - prédio localizado na Esquina das avenidas João Pessoa e Venâncio Aires -, o Master Plan reuniu, no mês de maio, 70 interessados no protagonismo das transformações. Empreendedores, dirigente de hospitais, DC Shopping, Espaço Vila Flores, Associação Sul-Riograndense de Apoio ao Desenvolvimento de Software (Softsul), entre outras vozes, compareceram. 

Atualizar a cena urbana e a infraestrutura desse vasto pedaço do 4º Distrito, sem desfigurar suas referências arquitetônicas, sociais e culturais é um dos desafios.

O Master Plan contempla Living Lab (local de pesquisas e testes) e, para a sua execução eficiente, a Ufrgs desenvolveu uma ferramenta digital de construção de modelos denominada Cityzoom. Esse programa dá suporte às decisões relacionadas a planejamento urbano, diz Turkienicz. Contém também instrumentos de simulação de plano diretor e planejamento de novas cidades, com seus impactos.

Depois de receber as conclusões do Master Plan - a previsão é em outubro - o município pretende deixar encaminhado antes do final do ano outro desafio: a modelagem financeira às obras de culto e imprescindíveis à revitalização urbana.

Características do 4º Distrito

Por reunir em seu entorno boa logística de acesso e de saída, reforçada pela presença do porto de Porto Alegre, Aeroporto Internacional Salgado Filho e das rodovias federais BR 290 (freeway), BR 116 e BR 448, o 4º Distrito é hoje um lugar especial. Portanto, não foi ao acaso a decisão de escolha de uma área de seu território para acolher o futuro Distrito Criativo. E qual seria o seu potencial para atrair investimentos?

O professor Benamy Turkienicz tem respostas à questão. Na ampla área situada ao longo dos dois lados da bacia de drenagem do arroio Dilúvio, diz, existem mais de 20 operações do setor de saúde, entre as quais hospitais (Ernesto Dornelles, Clínicas, Ulbra, Mãe de Deus, Moinhos de Vento, HPS, São José), além de clínicas e laboratórios (Lafergs). Mas há uma dificuldade comum a todos esses serviços: deslocamento no trânsito.

Na avaliação de Turkienicz, o Distrito Criativo tem disposição natural para sediar empreendimentos voltados à saúde como hospitais, centros de pesquisa, fabricantes de medicamentos e de produtos ao setor. Atenderia demandas do amplo mercado e desenvolveria inovação. Aos usuários dos serviços de saúde — grande parte vem de cidades da Região Metropolitana e Interior — o benefício imediato será a grande redução no ingresso de ambulâncias e demais veículos na complicada e lenta malha urbana.

Há várias outras inclinações de negócios ao Distrito, cita o professor. Por exemplo, empresas do setor de eletroeletrônicos, que já estão presentes no local. Centros de Distribuição (CDs) teriam facilidade operacional. No Master Plan, as simulações do Cityzoom trarão novas luzes. Com o programa, calcula-se a exposição solar de cada prédio e projeta-se a quantidade de produção de energia fotovoltaica possível no 4º Distrito.

Uma resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) permite abater do valor da conta toda a eletricidade fotovoltaica que foi gerada e lançada no sistema interligado, lembra Turkienicz. Das obras inevitáveis e já identificadas à região estão inclusão de rede subterrânea de fios, investimentos nos sistemas de iluminação, de drenagem (a área é sujeita a alagamentos em dias de chuva) e de esgoto cloacal. Também deverão ser implantados anel de fibra ótica (projeto da Procempa), ciclovias e de espaços públicos de convivência.

Prazos

Fazer do Distrito Criativo um ambiente real não será obra para término em 2016, nem 2017, com certeza. Nos seus seis meses restantes de gestão, o atual governo ambiciona deixar tudo bem encaminhado para o próximo prefeito. O secretário da Fazenda, Jorge Toneto, não estabelece datas, nem prazos. Também não teme interrupção do projeto porque, segundo ele, a matéria é de interesse da cidade, não de um governo e, menos ainda, de partidos. “Vamos concluir 100% do gabarito do Distrito nos planos urbanístico, jurídico e econômico”, afirma. O 22@Barcelona, destaca Toneto, existe há 20 anos e ainda faltam 30% para a sua implantação ser concluída. Em Porto Alegre, algumas questões avançaram.