Porto Alegre está de aniversário, completando 244 anos de história. E como é desafiador, diante dessa data de tamanha importância, definir em palavras as emoções de ver, sentir e ouvir tudo o que a capital dos gaúchos tem a expressar. Ou seria possível descrever a pintura formada no Guaíba, com os últimos raios de sol? É indescritível a experiência de ouvir o grito das torcidas de Grêmio e Inter em dia de clássico do nosso futebol. O que importa mesmo é que o “porto dos casais” nasceu para ser vivido!
Porto Alegre, de fato, esbanja charme. Não apenas por seus habitantes que receberam influências das mais diversas imigrações (Itália, Alemanha e dos países platinos), mas também porque veste cores novas a cada estação do ano. Pétalas de ipês, jacarandás e flamboaiãs formam lindos tapetes naturais nas vias e calçadas. Não é à toa que é considerada a cidade mais arborizada do Brasil, com 700 mil árvores em vias públicas. Há aproximadamente 17 metros quadrados de área verde para cada habitante.
E é desta senhora de 244 anos que muitos filhos sentem saudade. Vivendo hoje em outros países, lembram da “mãe” com emoção. E gostariam de, hoje, data de seu aniversário, lhe dar um abraço apertado, simbolizando o amor que sentem por sua terra natal e materializando a saudade. Como diz o ditado popular, um dia o bom filho à casa torna. Mesmo distantes, milhas e milhas, enviam um feliz aniversário. E um até breve!
“Eu mudei, Porto Alegre também”
A jornalista Márcia Villanova, de 45 anos, atualmente mora em Oliveto, no vilarejo de Arezzo, na Toscana, Itália. Márcia deixou Porto Alegre quando tinha 32 anos para viver em um local bucólico. “É um lugar muito antigo, mas muito bem conservado”, comenta. A mudança para a Europa foi por “amor”.
Ela conheceu o marido Massimiliano Dindalini no II Fórum Social Mundial, em 2002. Na época, ele era prefeito de uma cidade da Toscana e participou do Fórum das Autoridades. Márcia trabalhava como freelancer. “Como ele não podia deixar a prefeitura, mudei para a Itália”, conta. Márcia trabalha atualmente como jornalista em um site de notícias italiano, atendendo a empresas italianas.
Ela também atua como perita no Tribunal de Arezzo, sendo tradutora juramentada para os casos que envolvam cidadãos de países de língua portuguesa. A volta para Porto Alegre, por enquanto, não está nos planos. Lembra que no início sentia muita falta da família, mas quando estava no Brasil, a saudade era da Itália. “Eu mudei e Porto Alegre também”, diz ela, que é mãe de Gabriele. A saudade é mais destinada à família. “Também tenho saudades de passear pelo Brique da Redenção aos domingos, ir tomar chimarrão no Gasômetro ou caminhar pelo viaduto da Borges de Medeiros”.
Saudade do Bom Fim
A publicitária de formação Shanti Petry Luz, 41 anos, está adaptada à vida na Holanda. Residente em Amsterdam, ela trabalha em múltiplas funções. Além de fazer traduções, produz textos para rádios e revistas brasileiras e participa, como voluntária, da Cruz Vermelha, atendendo aos idosos. Retorno ao Brasil? Só depois que a filha crescer e ficar independente: “E a violência em Porto Alegre diminuir”.
Shanti resolveu deixar o Brasil por uma conjunção de fatores. O principal foi o fato de não se adaptar ao sistema de trabalho brasileiro: 8 horas por dia com 2 horas de intervalo, 5 dias por semana. Ela compara com o mercado holandês, em que o trabalhador ganha por hora e, segundo ela, quase sempre é possível escolher quantas horas se quer trabalhar. “É tudo mais flexível e a qualidade de vida é respeitada, principalmente se você tiver filhos”, atesta. “Trabalho 30 horas semanais e tenho tempo de acompanhar o crescimento de minha filha”, salienta Shanti, que esteve por aqui em 2015.
Shanti diz que a capital gaúcha é sua cidade e seu lugar no mundo, apesar de ter nascido em Amsterdam, quando os pais gaúchos, aderiram ao movimento hippie e desbravaram a Europa nos anos 1970. “Andar pela ruas do Bom Fim, com o vento batendo no rosto e cantalorando uma canção do Nei Lisboa é o céu para mim. O paraíso na terra”, compara.
Redenção no pensamento
Há 13 anos em Christchurch, na Nova Zelândia, Thiago Pautasso Goulart, de 30 anos, trabalha como segurança e personal trainer. Criado no bairro Partenon, relembra com saudades dos amigos, apesar de estar fora do Brasil desde os 18 anos. Segundo ele, o retorno à Capital deve ocorrer em breve. A saudade da família e dos costumes gaúchos estão lhe “puxando de volta para casa”.
Tanto que Goulart até hoje lembra dos domingos, quando ía com os amigos no Parque da Redenção tomar chimarrão, vendo as pessoas passarem. “A família me faz muita falta, pois faz tempo que não vejo os meus parentes”, afirma. Goulart quis sair do Brasil porque pretendia aprender inglês e também pela vontade de viajar pelo mundo. Porém, o tempo foi passando e ele foi ficando no exterior. “As oportunidades de trabalho foram aparecendo”, recorda. “Fui ficando um pouco mais do que tinha planejado”, conta ele, que torce pelo Grêmio.
A última vez que esteve na Capital foi há 7 anos. Um tempo enorme, salienta ele, sem rever as pessoas que lhe são importantes, em especial os familiares. Além disso, a lembrança de alguns lugares fazem o coração ficar apertado. “Gostaria de comemorar o aniversário da cidade na Redenção”.
“Quero de volta aquela Porto Alegre segura e amigável”
O término de um casamento impulsionou a porto-alegrense Cacilda França, a Guga, 32 anos, a seguir para a Europa. No Natal de 2004, viajou para Londres, na Inglaterra, onde conheceu vários portugueses e se apaixonou por um. Por problemas de saúde na família, retornou ao Brasil em 2006. Mesmo assim, continuou mantendo contato com o namorado lusitano. No mesmo ano perdeu o pai, quando decidiu seguir para Lisboa, onde vive atualmente com o marido.
“Da minha casa, consigo ver o rio Tejo, o Cristo Rei e a Ponte 25 de Abril”, relata. Ela revela não sentir-se só. Guga lembra que sempre lhe perguntam se voltará ao Brasil. “E eu respondo que nunca mais é muito tempo. Por enquanto fico por aqui.” Da capital gaúcha, além da família, não esquece do Baile da Redenção. E fala da insegurança da cidade: “Quero de volta aquela Porto Alegre segura e amigável, sem a presença do medo decorrente da insegurança”.
Saudade do pôr do sol
Tack (obrigado, em sueco). Provavelmente tenha sido a primeira palavra que Susie Juenemann Eliasson, de 49 anos, aprendeu no idioma. Morando há 22 anos em Estocolmo, na Suécia, fala com carinho do bairro Södermalm, onde vive. “É uma das ilhas do arquipélago de Estocolmo, e residência de artistas, e onde existem opções variadas de bares e restaurantes”, conta a torcedora do Grêmio, que mudou-se para a Suécia por amor.
Susie deixou Porto Alegre quando tinha 28 anos e há 22 reside na Escandinávia. Atualmente trabalha como coordenadora de marketing de uma construtora. Com a vida profissional estabilizada, e, mesmo sentindo saudade do Brasil e, mais ainda de Porto Alegre, Susie não fala se tem previsão de retornar à Capital.
Apesar da crise no Brasil e da violência desenfreada, Susie ainda guarda na memória um lado romântico que a Capital perdeu com o passar do tempo. Lembra com nostalgia do “perfume do churrasco de domingo”. Também sente saudades de passear pela rua Padre Chagas e do pôr do sol do Guaíba. “Também me faz falta conversar e rir junto com amigos e familiares, dos quais sinto uma saudade enorme”, suspira Susie.
Porto Alegre completa 244 anos e embala saudades de gaúchos pelo mundo
Capital esbanja charme e provoca recordações no dia do seu aniversário