A Promotoria de Justiça de Defesa Comunitária de Gravataí instaurou inquérito civil para apurar possíveis irregularidades no Pampa Safari, no que se refere ao abate de cerca de 300 cervos selvagens que estariam infectados por tuberculose. O abate seria necessário já que a doença representaria riscos para os outros animais e também para seres humanos. Além de ter acompanhado a fiscalização realizada na última semana pela Fundação de Meio Ambiente de Gravataí (FMMA), a promotora de justiça Carolina Barth Loureiro Ingracio já ouviu veterinários envolvidos na questão e solicitou documentos ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Exames de animais já abatidos teriam registrado negativo para a doença.
“As informações são contraditórias sobre o surto de tuberculose entre os animais do parque, uma vez que foi constatado que o local onde estão os cervos selvagens é protegido por telas e alguns depoimentos indicam que os animais não estariam infectados. Por isso, estamos adotando uma posição de cautela pra verificar essas informações”, explicou a promotora. De acordo com Carolina Barth Loureiro Ingracio, “o Ministério Público vai tomar todas as medidas possíveis para garantir a segurança dos animais e também da população que habita o entorno do parque de animais selvagens”. Ela acrescentou, ainda, que o MP “está zelando para que não sejam feitos abates desnecessários”.
As informações a respeito dos abates aos quais seriam submetidos mais de 300 cervos do já desativado Pampas Safari, localizado em Gravataí, são desencontradas. De um lado, a deputada Regina Becker Fortunati (Rede) afirma que os animais não estariam contaminados com tuberculose. Inclusive, diz que teve acesso a uma documentação que comprova que os animais foram testados por um veterinário contratado pelos proprietários. “Não consta a patologia em nenhum animal que foi testado”, afirma Regina.
Do outro lado, o médico veterinário e chefe do Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama-RS, Paulo Guilherme Carniel Wagner, diz que “se a deputada acredita que os órgãos de meio ambiente do Estado estão brincando, eu fico preocupado”. Segundo Wagner, veterinários oficiais do Estado reailzaram exames que comprovam a presença da doença nos animais. A definição de abate dos cervos, conforme Wagner, partiu dos proprietários. “O empreendedor definiu que eles seriam enviados para o abate. Não aceitamos os exames do empreendedor, não liberamos para o abate para o consumo humano. Então ele desistiu e só queria eliminar os animais, disse que não conseguia mais mantê-los”, explicou.
Wagner reiterou que a decisão de abater os animais é do empreendedor. “A lei de zoológicos, à qual ele se regulava, permite o abate de animais. O Ibama não age por gosto ou desgosto, age porque a lei exige”, ressaltou. O que o Ibama-RS concedeu, conforme Wagner, foi uma licença de transporte dos animais. “Simplesmente para dizer que o animal saiu do local tal e foi para o local tal. O local onde ele está, tem que estar autorizado para recebê-lo”, afirmou.
O Grupo Febernati, que poderia esclarecer melhor a situação, afirmou que não irá se manifestar sobre o assunto.
Regina e o diretor-presidente da Fundação Municipal de Meio Ambiente de Gravataí (FMMA), Jackson Müller, foram ao Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor, que teria recebido amostras dos 20 cervos do Pampas Safari que foram abatidos há cerca de duas semanas.
Conforme a parlamentar, os animais não apresentavam lesões e os exames, até o momento realizados, apontam resultado negativo para tuberculose. Os exames realizados são de proteína C reativa (PCR) e apenas em um animal foi necessário realizar também um exame de linfonodo, mais específico. A segunda etapa, e para aprofundar uma confirmação de um resultado, é o exame histopatológico do material recolhido dos animais. “Seria irresponsabilidade não avaliar a questão sob o ponto de vista da saúde pública, mas não se pode tomar uma medida generalista”, frisou a deputada. “Precisamos saber qual é a política que o Estado vai adotar”, disse Regina. “Nosso objetivo é elucidar todos os fatos para mostrar que o que está acontecendo é uma atrocidade”, ressaltou.
De acordo com Müller, a opção mais aceitável seria justamente suspender qualquer novo abate de cervos até que todas as informações sejam esclarecidas. “Como não há certeza do que está sendo dito, vamos suspender, porque não temos a confirmação de quantos animais estão contaminados, nem quais seriam eles”, afirmou. Segundo ele, não há casos de pessoas contaminadas por tuberculose dentro do parque.
Fundado há 30 anos, o Pampas Safari possui uma área de 300 hectares, no km 11 da RS 020, entre Gravataí e Cachoeirinha. Conforme entidades ambientalistas, cerca de 2 mil animais vivem no local. O Pampas Safari está fechado para visitações desde novembro do ano passado e em processo de encerramento.
Promotoria de Gravataí instaura inquérito sobre abates no Pampas Safari
Exames de cervos abatidos teriam dado negativo para tuberculose