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Reajuste da tarifa: um ciclo vicioso e viciado

Índice de Passageiros por Quilômetro caiu de 2,17, em 2004, para 1,8, em 2014

Se o número de usuários do transporte público não tivesse despencado drasticamente nos últimos dez anos, a tarifa dos ônibus de Porto Alegre não precisaria subir. É essa a conclusão que se tira a partir da análise de um dos itens que compõem a tabela de custos do transporte. O IPK – Índice de Passageiros por Quilômetro – caiu de 2,17, em 2004, para 1,8, em 2014. O índice não influi na maior fração do valor que compõe a passagem – o que pesa mais é o reajuste do salário dos rodoviários, que sempre segue a inflação. No entanto, a tarifa técnica de quase R$ 3,27, definida pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) e aprovada na manhã de hoje pelo Conselho Municipal de Transportes Urbano (Comtu), poderia ter crescido menos – ou apenas acompanhado a inflação registrada ano a ano na última década. Não foi o que aconteceu.

Em 2004, a passagem custava R$ 1,55. O valor de reajuste ultrapassou a inflação em todos os anos até 2014. Em 2015, o percentual de reajuste é superior a 10%. Atualmente, cerca de 1 milhão de pessoas utiliza o sistema de transporte público de Porto Alegre – sistema esse composto apenas por ônibus, pois os BRTs ainda não entraram em funcionamento e o metrô nem chegou a sair da papel. Esse sistema limitado perdeu cerca de 30 mil usuários no ano passado. E a tendência é perder mais ainda nos próximos anos se a qualidade não evoluir junto com a necessidade dos passageiros.

Parece um ciclo. Não sei se vicioso ou se viciado. O transporte tem perdido passageiros, e a tarifa continua a subir mais do que os salários dos usuários. A culpa pela debandada não é exclusiva do passageiro, mas do próprio sistema. Para alguns, locomover-se de carro passou a custar o mesmo do que andar de ônibus. Fora o conforto dos veículos particulares, foram poucas as linhas de ônibus criadas nos últimos anos. Raras também foram as linhas que alteraram trajetos, de maneira inteligente, para coletar mais passageiros ou economizar nas pontas. A evolução de itens básicos de conforto no transporte parecem ter congelado no tempo: Ainda briga-se pela instalação de equipamentos de ar-condicionado. Tabelas de horário nas paradas e GPS nos veículos para facilitar o monitoramento da frota pelos próprios usuários são ferramentas com as quais os porto-alegrenses só têm contato quando viajam para o exterior.