O Rio Grande do Sul é rota para o tráfico de pessoas, crime que movimenta no mundo 32 bilhões de dólares por ano. Não há estatísticas confiáveis sobre o crime, mas estima-se que, entre as 200 mil pessoas que somem por ano no país, parte seja traficada. Desse total de desaparecidos, apenas 60 casos por ano, em média, são confirmados como tráfico de ser humano.
Maria, como tantas outras marias no Brasil, sonhava com uma vida melhor e um futuro para a família. Como as outras, acabou sendo envolvida em um pesadelo: o tráfico de seres humanos (TSH). O drama da jovem Maria (nome fictício) não foi maior porque ela conseguiu escapar a tempo, antes de ser enviada para o Exterior. Segundo dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UnoDC, singla em inglês), o TSH é considerado o terceiro crime mais rentável do mundo, movimentando cerca de 32 bilhões de dólares anualmente. Ele perde apenas para o tráfico de drogas e armas. As quadrilhas têm lucro de 14 mil dólares, às vezes até mais, com cada ser humano traficado.
Estimativas apontam que, no Rio Grande do Sul, 500 meninas ou mulheres somem todos os anos. No entanto, as próprias autoridades reconhecem que este número pode ser maior, já que nem todos os casos de desaparecimento são registrados. No Brasil, são 200 mil por ano que somem, sendo que grande parte é levada por traficantes. Os dados do Sistema Nacional de Estatística de Segurança Pública e Justiça Criminal apontam, em levantamento feito entre 2005 e 2013, que 382 pessoas foram vítimas de tráfico para fins de exploração sexual e 160 foram traficadas para trabalho escravo.
A vida de Maria começou a entrar nesse turbilhão de medo e ameaças quando ela reencontrou um velho conhecido em uma cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre. Desempregada, recém-separada e com dois filhos pequenos, estava à procura de uma oportunidade de proporcionar uma vida melhor aos filhos. Na conversa, ela disse ao amigo que procurava emprego. No mesmo momento, ele, um homem de 27 anos e aparentemente bem-sucedido profissionalmente, lhe ofereceu uma vaga. Esta seria em Santa Catarina. Maria aceitou na hora. “Era uma oportunidade para eu dar uma vida melhor aos meus filhos”, recordou. “Não pensei duas vezes em aceitar, afinal ele era um velho conhecido”, lembra. Alguns dias depois os dois começaram a namorar.
Apesar de um pedido estranho, Maria não quis questionar. Ele lhe pediu carteira de identidade, CNH e até o cartão do banco. A justificativa era que seria melhor já ter um apartamento alugado para quando a família chegasse à cidade, no interior de Santa Catarina. Cerca de um mês depois do encontro, Maria embarcava com os filhos e seriam os 45 dias mais difíceis de sua vida. Chegando na cidade, em 2015, o homem a levou ao imóvel. Era um apartamento de um quarto, que ela gostou. Porém, o amigo lhe disse que ficaria alguns dias com ela e as crianças, pois a sua casa estava em reforma. Mesmo estranhando, Maria cedeu. Começava neste momento o seu martírio, que dura até hoje. “Fiquei no quarto com os meus filhos e ele na sala”, conta. A partir desse momento, o amigo começou a vigiá-la. “Ele não me deixava sair, ficar só, e meus filhos também eram controlados.”
O homem a forçou a fazer sexo constantemente. Ele, acentuou Maria, queria que ela ficasse grávida, chegando ao ponto de furar as camisinhas. Não conseguiu seu intento. Além disso, ele demonstrava saber muito a respeito da vida dos familiares de Maria. Da irmã que mora no exterior e de outros parentes, onde residiam e o que faziam. As agressões físicas não eram raras. Mas o que mais deixou Maria apavorada foi quando, em uma tarde, ele a convidou para fazer a entrega de um produto da empresa que ele representava na cidade catarinense. Ela foi. Os filhos ficaram no apartamento. No local onde ocorreu a entrega, apenas o homem desceu do veículo.
Ele entregou um pacote com algo estranho”, disse Maria. “Não sei o que era, mas ele percebeu que eu tinha visto algo que, certamente, eu não deveria ter presenciado”, analisa. Quando o homem retornou ao carro, percebeu que Maria estava tensa. Foi neste momento, que ele resolveu contar algo, que iria mudar a vida de Maria para sempre, forçando-a a morar escondida e sempre com medo. Ele lhe disse que era sócio de uma casa noturna situada na zona Norte de Porto Alegre e que era responsável por conseguir garotas para levar à boate, onde elas fariam programas. No entanto, não era apenas isso. “Ele me contou que muitas eram levadas para um sítio, em Viamão, e de lá embarcavam para outros lugares”, revela. “Eu estava tão apavorada que resolvi não perguntar que lugares eram”, relembra.
Maria prefere não contar como retornou ao Rio Grande do Sul para não prejudicar pessoas que a ajudaram. Apenas relata que foi intimada para uma causa trabalhista e veio para a cidade. O amigo veio junto. Mas no Foro, ela conseguiu escapar com os filhos e esconder-se. Em seguida, procurou a polícia, que lhe indicou uma rede de proteção. Atualmente, ela vive escondida, sobrevivendo da venda de trabalhos manuais. A sua profissão ela não pode exercer, pois tem medo que o homem a encontre. Ele, inclusive, já a procurou na casa de parentes e os ameaçou. “Vivo aterrorizada”, afirma. “Não sei o que fazer e a possibilidade de que poderia ter sido traficada para outro país e não ver mais os meus filhos me apavora”, lamenta a jovem de cabelos e olhos castanhos, transmitindo uma grande tristeza, até mesmo quando sorri.
RS é rota do tráfico de pessoas, terceiro crime mais lucrativo do mundo
Estimativas apontam que 500 meninas ou mulheres somem todos os anos no Estado