*Com informações de Heron Vidal
Chega às mãos do prefeito José Fortunati nesta segunda-feira um documento elaborado por técnicos municipais justificando a necessidade de ampliação da pista do Aeroporto Salgado Filho não apenas por motivos de segurança. O estudo encomendado pelo prefeito quinta-feira tão logo soube do recuo do ministro da Secretaria de Aviação Civil, Eliseu Padilha, quanto ao pedido de cancelamento da extensão — será entregue à Infraero.
O documento listará a importância da obra para a economia do Estado. Estima-se que, em 15 anos, bilhões de reais foram perdidos em tributos e negócios que deixaram de ser realizados por falta de condições de transporte aéreo. O Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística diz que há demanda reprimida. “Itens acabam transportados por via rodoviária até Campinas e de lá embarcam para Europa e Estados Unidos”, explica vice-presidente Institucional, Sérgio Neto.
Padilha disse que o volume de cargas que deixa o Estado por via aérea fica em 35 mil toneladas por ano. “É no mínimo o dobro. Só não sai mais por via área porque não tem capacidade”, aponta Neto. A atual pista suporta o peso de grandes aviões, tanto que empresas com linhas internacionais atendem Porto Alegre. Apesar do porte semelhante, aviões de passageiros pesam bem menos que cargueiros. O tamanho, porém, afeta linhas comerciais. É impossível um Boeing 777 pousar. A American Airlines usa um 767 na ligação com Miami.
O texto deverá frisar que a prefeitura cumpriu sua parte no acordo firmado com os governos federal e estadual, para garantir as obras de ampliação, entre elas, a extensão da pista em 920 metros. O município informará que a desocupação do sítio aeroportuário, para possibilitar a construção e a operação, estará concluída neste ano.
O processo de remoção das famílias das vilas Dique e Nazaré, capitaneado pelo Departamento Municipal de Habitação (Demhab), deve estar 100% pronto até março de 2016. As obras na pista, no entanto, poderiam começar antes disso. “Nós vamos atender ao cadastro original e eventualmente algum desdobramento familiar. O restante terá aluguel social por seis meses”, explica o diretor-geral do Demhab, Everton Braz.
Crea: extensão não basta
Aeroporto Salgado Filho (manter, desativar ou privatizar), aeroporto em Nova Santa Rita (construir ou abandonar a ideia) e metrô de Porto Alegre (parte do seu traçado não cruza áreas densamente povoadas) serão as pautas do congresso a ser realizado em março pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea/RS). “A sociedade precisa quebrar a caixa preta das grandes obras que lhes dizem respeito para obter transparência e influenciar na escolha da melhor decisão, apesar de ela ser da política”, defende o novo presidente do Crea/RS, Melvis Barrios Junior, que dirigirá a entidade com 75 mil profissionais cadastrados pelos próximos três anos.
Conforme o engenheiro, nos debates sobre o Salgado Filho, não se disse várias coisas. Por exemplo, o aumento da pista em 920 metros não trará aviões de grande porte. “Para isso acontecer será necessário reformar a atual pista de 2.280 metros. Do contrário ela será deformada, pois está projetada para aeronaves de 120 toneladas e não de 300.”
Essa questão precisa ser discutida tecnicamente, diz Melvis. Lembra que o Salgado Filho tem pista única, ao contrário dos aeroportos do Galeão (RJ), Guarulhos (SP) e outros. O metrô subterrâneo, no traçado do Centro até a Cairu, acompanhará a linha do atual metrô de superfície e dos corredores de ônibus da Farrapos. “Por que essa rota não segue pela Cristóvão Colombo, onde há grande concentração populacional?”, indaga. Por isso, conclui, o futuro não pode contemplar decisões exclusivas da política.
Capital quer mais linhas comerciais
Uma pista maior possibilitaria o aumento da capacidade logística do Aeroporto e aterrissagem de aviões de grande porte, o que poderia ampliar o número de linhas comerciais e de companhias aéreas internacionais. Porto Alegre desponta como a quarta capital em turismo de negócios.
A posição é também fruto da localização do Aeroporto, com acesso facilitado ao Centro em poucos minutos. “Isso interfere diretamente na vida das pessoas”, apontou o vice-prefeito Sebastião Melo. Redes hoteleiras investiram pesado nos últimos anos nesse mercado. A possibilidade de fechamento do Salgado Filho tem feito o alto escalão da prefeitura perder o sono. O governo estadual defende a construção de um novo aeroporto na divisa de Portão e Nova Santa Rita.
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Estudo encomendado por Fortunati justifica modificação no aeroporto de Porto Alegre