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RS tem o maior número de reassentados do país

Povo acolhedor, sem histórico de xenofobia, se torna atraente para refugiados

Esteticista Roquia Atbai chegou a Porto Alegre, em 2002, junto com outras cinco famílias afegãs
Esteticista Roquia Atbai chegou a Porto Alegre, em 2002, junto com outras cinco famílias afegãs Foto : Pedro Revillion
Por ter um povo acolhedor, sem histórico de xenofobia e habitado por imigrantes, o Rio Grande do Sul se tornou um refúgio de quem precisa deixar o seu país por medo. O Estado tem o maior número de reassentados no Brasil: 231 pessoas vindas do Afeganistão, Colômbia e Paquistão. A coordenadora do Programa de Reassentamento Solidário da Associação Antônio Vieira (Asav), vinculada à Agência da ONU para Refugiados (Acnur), Karin Kaid Wapechowski, explica que o gaúcho tem um entendimento maior das diferenças e uma sensibilidade com quem vem de fora. Os perseguidos por raça, cor, religião, conflitos armados ou ideologia política costumam se adaptar bem e fixam residência em cidades como Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Sapiranga, Santa Maria, Passo Fundo, Guaporé, Caxias do Sul e Serafina Corrêa.

Dados do Comitê Nacional para Refugiados (Conare) indicam que, atualmente, vivem no Brasil 4,5 mil refugiados de 77 nacionalidades. Do total, cerca de 3,8 mil têm entre 18 a 59 anos. Para o diretor da Asav, Geraldo Kolling, o engajamento de 3 mil parceiros garantiu que 90% dos refugiados estejam empregados no RS. A assistência no Brasil é financiada pela ONU, que oferece a possibilidade de vinda para o país. "A pessoa aceita ou não e a Acnur submete o caso a uma missão brasileira", diz a coordenadora do Programa de Reassentamento Solidário.

O refugiado recebe um registro nacional de estrangeiro, CPF e Carteira de Trabalho e o governo passa a se responsabilizar por ele, dando acesso aos mesmos serviços públicos oferecidos aos brasileiros. "Aqui eles são monitorados pelas agências implementadoras do programa de reassentamento, integrado por milhares de parceiros", explica Kolling.

Casas são alugadas conforme o perfil e tamanho das famílias, por período de 12 meses. Nesse mesmo tempo de adaptação, os refugiados também recebem bolsa mensal correspondente ao número de membros no núcleo familiar. "Uma pessoa ganha ao menos um salário mínimo e meio", diz Karin. A instituição garante ainda as necessidades básicas dos estrangeiros, quando chegam ao país, repassando cesta básica, móveis, roupas e material escolar.

Colombianos que vieram para cá fugiram da luta armada e do assédio de narcotraficantes aos jovens. "As famílias não querem que os filhos sejam recrutados pela guerrilha", diz Karin. Apesar de estar em segurança, em São Leopoldo, no Vale do Sinos, uma dessas famílias ainda tem medo. Os integrantes não gostam de dizer o nome, muito menos o endereço. Segundo Karin, além dos mais de 200 assentados no RS, há outros refugiados que estão no Estado de forma independente e que vêm de países como o Senegal, entre outros.

Afegã ficou no Brasil com os filhos


A esteticista natural do Afeganistão Roquia Atbai, 42 anos, chegou a Porto Alegre em 2002, com o ex-marido e os dois filhos, na época com 8 e 9 anos. Eles moravam na Índia e não tinham condições de voltar ao país de origem, bombardeado pelos Estados Unidos em 2001. Junto com outras cinco famílias afegãs, Roquia desembarcou em solo brasileiro sem falar português e usando roupas típicas, como lenços cobrindo o rosto. Um mês depois, ela, que é professora, passou a atuar em um salão de beleza e a se adaptar à cultura ocidental. Hoje, já anda com o rosto descoberto, usa roupas justas e fala o idioma sem problemas.

Os filhos de Roquia estudam e trabalham, mas o ex-marido voltou para o Oriente Médio, assim como a maior parte dos que vieram com ela. "Eles não conseguiram se adaptar", diz. A ideia que Roquia tinha do Brasil era de um país de Primeiro Mundo. Mas encontrou a insegurança. "Aqui tem muito assalto". Mas há muitos pontos positivos, como a receptividade das outras pessoas, a exemplo da cabeleireira Maria Silveira da Rosa, 58 anos, que acompanhou toda a trajetória da amiga em Porto Alegre e é uma das que a apoiou. "Ela chegou tímida, usando o véu. Depois, nós a ajudamos com o idioma. Agora, já é uma brasileira", observa.

A distância dos pais, que ficaram no Afeganistão, e do restante da família é outro problema para Roquia. "Não os vejo desde que vim para o Brasil. Falamos só por telefone e Internet", explica. Ela não pensa em voltar ao seu país e não pode trazer os pais para o RS. "Lá eles têm casa e trabalho e aqui a vida é muito difícil", conta. Roquia compara seu refúgio com o da irmã, no Canadá, "onde há 40 mil refugiados e têm uma vida muito melhor lá".

Haitianos após a catástrofe

Os mais de cem haitianos residentes no Rio Grande do Sul são chamados, erroneamente, de refugiados. Eles estão aqui com visto humanitário, por conta da destruição em seu país, após um terremoto em 2010. Vieram ao Brasil por uma questão de segurança, mas enfrentam dificuldades na adaptação - especialmente por causa da diferença do idioma e da cultura.

Jacksin Etienne, no Brasil há quatro meses, planeja ficar no Estado e estudar. Ele auxilia conterrâneos em Gravataí, onde mora e trabalha. Etienne é um dos 175 haitianos identificados pela Comissão de Cidadania e Direitos Humanos (CCDH) da Assembleia Legislativa, que acompanha os casos. Várias empresas gaúchas estão recrutando esses estrangeiros. O governo do Estado também vem prestando apoio.


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