Setor de alimentação considera decreto de flexibilização insuficiente

Setor de alimentação considera decreto de flexibilização insuficiente

Empresários comemoram início de retomada da economia, mas veem medidas distantes do ideal

Jessica Hubler

Setor alimentício considera medidas ainda insuficientes

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O setor de alimentação segue insatisfeito com a flexibilização proposta pela Prefeitura de Porto Alegre. Apesar de as entidades representativas do segmento afirmarem que a possibilidade de abertura “já é um começo”. De acordo com a presidente da Abrasel Maria Fernanda Tartoni, a entidade enxerga o decreto como o início de uma retomada da economia, mas que ainda está longe de ser considerado “bom” pelos empresários do setor. “De segunda a sexta, na hora do almoço, a liberação contempla apenas uma parcela do setor, que está mais voltado à alimentação no dia a dia. O que estamos pedindo bastante é que esse funcionamento seja estendido, o quanto antes, para pelo menos pegarmos os finais de semana”, afirma. 

Conforme Maria Fernanda, o turno da noite também vem sendo solicitado pelos empresários, para que seja possível retomar as atividades de bares e restaurantes mais voltados ao entretenimento. “Estamos acompanhando a estabilização da doença e seria importante que pudéssemos retomar os trabalhos de noite também. Até porque, funcionando por um período mais amplo, conseguiríamos evitar aglomerações”, reitera.

Atualmente, conforme o decreto 20.687 da Prefeitura de Porto Alegre, restaurantes, bares, padarias, lojas de conveniência, lanchonetes e similares podem abrir, com atendimento ao público, de segunda a sexta-feira, das 11h às 17h, com restrição ao número de clientes simultâneos e observação das regras de higienização aplicáveis. O funcionamento nos sistemas de telentrega e pegue e leve está permitido sem restrição de horários, vedado o ingresso de clientes nos estabelecimentos e a formação de filas, mesmo que externas.

Conforme Maria Fernanda, os clientes ainda estão receosos e não aconteceria uma “correria” para os estabelecimentos de alimentação. “As pessoas ainda não estão confiantes, temos uma parcela que está vindo aos estabelecimentos, mas não chegamos nem a 20% do faturamento em uma grande maioria. Quem sobrevive dessa forma?”, questiona. Por mais que as empresas tenham trabalho com redução de custos, negociação de aluguel e com fornecedores, além da suspensão dos funcionários ou reduções de salário e jornada, as medidas estão no limite. “Operar com 20% do faturamento é algo bastante complicado. O lado bom do decreto é a flexibilização da abertura, que a gente vem pedindo há bastante tempo, mas agora precisamos aumentar os turnos e os dias da semana de atendimento”, enfatiza.

Apesar de os estabelecimentos começarem a retomar as atividades, seguindo todos os protocolos de higiene e distanciamento, Maria Fernanda reitera que a proximidade do fim da suspensão dos contratos e também a imprevisibilidade das atividades por conta das atualizações semanais das medidas restritivas, vêm trazendo “grandes dilemas” para os empresários. “A gente está se vendo em uma situação bastante complicada. Se a economia não voltar a girar com um pouco mais de força, a probabilidade de fechamento ainda acontece, é um dos setores mais atingidos”, pontua. Conforme uma pesquisa informal feita pela Abrasel, é possível que pelo menos 20% dos cerca de 6 mil bares e restaurantes do Rio Grande do Sul acabem fechando as portas. 

“O grande problema é que semana a semana a gente fica na apreensão, não sabemos o que vai acontecer na semana que vem. Fica muito difícil trabalhar sem previsibilidade, estamos levando pressão de todos lados”, enfatiza. Além disso, Maria Fernanda destaca que a Abrasel segue em contato com a Prefeitura de Porto Alegre e com o governo do Estado “para que seja possível chegar a um denominador comum, que fique bom para todo mundo”. 

O Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre e Região informa que segue dialogando tanto com o governo do Estado, quanto com a Prefeitura de Porto Alegre, para que a flexibilização do setor siga de forma gradual e constante, no sentido de contemplar também nichos específicos com foco no funcionamento à noite e aos finais de semana. 

Para o proprietário da Padaria Dom Felipe, Artemio Gritti, a situação está complicada desde março. “Sentimos uma queda que chegou a 70% no faturamento do que vínhamos tendo, sendo que já não vinha muito bem o setor, enfrentamos uma crise nos meses de janeiro e fevereiro, com certeza foram os piores pelo menos para o meu negócio dos últimos 10 anos”, declara, frisando que com a pandemia “tudo piorou”. “As restrições foram importantes para o distanciamento social, mas o abre e fecha no complica um pouco porque dificulta o nosso planejamento, ficamos sem saber o que fazer”, ressalta.

Antes da pandemia, Gritti vendia em média 130 almoços diariamente. Agora, esse número caiu para 25, podendo subir para 30 em dias “muito bons”. “Acredito que uma padaria se abrir das 6h até meia-noite, não terei aglomeração, a procura está pequena”, comenta. Gritti defende que as restrições de turnos e dias da semana sejam mais específicas para cada estabelecimento. “Restringir para funcionarmos só das 11h às 17h só piora o que já está ruim. Nas padarias, nos comércios e nos restaurantes pequenos, não há aglomeração, precisamos aumentar esse horário de funcionamento”, diz.


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