Além de atrapalhar o turismo, a rodovia ainda causa problemas para a economia e para os moradores. As crateras no asfalto a cada poucos metros fazem lembrar o tempo em que a pista ainda não havia sido pavimentada e que os viajantes precisavam acampar depois de atolarem os veículos na areia.
"Há 30 anos, nós levávamos cinco dias para ir a Porto Alegre", lembra o agricultor Francisco Volni de Souza Gautério, 70 anos, que mora às margens do km 145, na localidade de Valim, em Mostardas. Ele acompanhou a história da construção da estrada e se decepciona com as atuais condições. "Agora não tem manutenção. Ouvi dizer que vinham tapando os buracos, mas aqui não chegou o conserto. Talvez arrumem, mas não é para eu ver. Quem sabe, os meus netos."
Como é comum na região, Gautério cultiva cebola, arroz e produz madeira. No entanto, ele calcula que 40% do que arrecada se perca com o pagamento exagerado de frete. "O transporte é mais caro por causa dos riscos", referindo-se aos frequentes acidentes que ocorrem na rodovia.
A RST 101, caminho até o Porto de Rio Grande, é percorrida por muitos caminhões e carretas. Os motoristas precisam andar em baixa velocidade e contornando as irregularidades da pista. Esse movimento de para, anda, diminui e desvia ocasiona colisões, saídas de pista e tombamentos, fora os problemas que ocasionarão nos veículos, mesmo para quem escapa ileso. 'Já perdi a conta de quantas tragédias já vi e de quantos carros estragados. Estou pensando em montar uma borracharia', brinca o agricultor.
Este ano, o número de acidentes chegou a 12 entre Palmares do Sul e São José do Norte. Foram três mortos, dez feridos e 14 veículos envolvidos, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), que administra a rodovia. De Osório até o km 140, a estrada está com boas condições de trafegabilidade e a partir de Tavares até o Sul do Estado, quando ela passa a ser chamada de BR 101, também, mas nos outros trechos a situação piora muito. O inspetor chefe da PRF de Osório, José Dirnei de Souza, explica que o trecho problemático deve ser federalizado, mas até lá, não se pode aplicar recursos da União para o restauro. Apesar da limitação, a PRF já a assumiu a fiscalização da via.
Más condições afetam economia
A Associação Comercial Industrial de Mostardas (Acim) estima que 80% do setor seja afetado pelas más condições da RST 101. O presidente da entidade, Vitor Hugo Matos, esclarece que o problema dificulta a chegada da matéria-prima e atrasa os prazos de entrega de produtos. "Uma viagem que levaria duas horas, dura quatro. Fora isso, existem os prejuízos com incidentes, como a quebra de uma roda e avarias nos veículos", declara. O produtor de cebolas Manoel de Lima, 60 anos, é um dos prejudicados com a situação. Segundo ele, R$ 1 cobrado pelo quilo já é baixo e desse valor ele gasta mais com o frete caro, em razão dos buracos da rodovia.
Para o turismo, o prejuízo não é diferente. Mesmo com atrações como o litoral marítimo, as praias da Lagoa dos Patos e a reserva ecológica da Lagoa do Rio do Peixe, em Tavares, a lotação dos hotéis tem reduzido, assim como a procura por restaurantes e outros serviços. O prefeito de Mostardas, Alexandre Galdino, lamenta que, mesmo agora, que a região passou a integrar a Rota Turística para a Copa do Mundo de 2014, as condições de acesso ainda estejam deploráveis. 'Estamos pressionando o governo do Estado', diz.
Dono de uma pousada, em Mostardas, Abel Araújo, 58, relata que 30% dos quartos ficam vazios nos finais de semana de verão, quando a procura deveria ser alta. "O prejuízo é grande, porque as pessoas deixam de vir depois que conhecem a estrada", conta. Atualmente a renda vem de trabalhadores do comércio que se hospedam nos dias úteis.
O proprietário de um hotel restaurante na beira do Balneário Mostardense, Márcio de Souza, 58, relata que foi um dos primeiros a ocupar a região próxima ao mar. "Quando cheguei, tinham apenas três casas", diz. No entanto, não viu a infraestrutura da rodovia que leva à cidade melhorar. "Em um final de semana, deixo de ganhar cerca de R$ 3 mil", reclama. Para Greice Bitencourte, funcionária de um estabelecimento na beira da estrada, em Palmares do Sul, os períodos de eleição, como o ano que vem, são os momentos escolhidos para taparem os buracos. "Mas isso é paliativo. Em poucos meses, está tudo aberto de novo", diz.
Pacientes sofrem com viagens
Solavancos agravam a situação dos doentes que são transportados das suas cidades de origem até Porto Alegre
O chacoalhar na estrada é também inimigo dos pacientes que precisam se deslocar até cidades maiores, que possuem hospitais e médicos especialistas. O motorista da prefeitura de Mostardas, Sérgio Laguna, 55 anos, é testemunha do duplo sofrimento de quem já está doente e precisa enfrentar um caminho cheio de buracos para encontrar atendimento. Ele viaja com frequência pela RST 101 para chegar à Capital ou a Osório.
A diarista Elizete Aparecida Vieira, 38 anos, era uma das passageiras do carro que levaria pessoas em tratamento para outra cidade, em uma das viagens realizadas por Laguna. Ela fez uma cirurgia de hérnia umbilical e os pontos abriram e infeccionaram. "Isso aconteceu por causa dos buracos da estrada", observou. Segundo ela, as crateras impossibilitam um trajeto tranquilo. Com problema na coluna, o serralheiro Valdoci de Souza Rocha, 59, nem precisa falar do desconforto que sente até chegar a Osório. Já a pressão de Maria Jaci Borges, 44, vai às alturas. "Fico com muito medo de acidente". Em outubro, moradores bloquearam a RST 101 em Mostardas, para mostrar a inconformidade com a trafegabilidade do trecho. Por horas, só foi permitida a passagem de ônibus e ambulâncias
Trecho passará ao governo federal
O superintendente do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) de Osório, Carlos André Guarche, esclarece que o trecho com problemas da RST 101 está em processo de federalização, mas ainda é responsabilidade do governo estadual. "Estamos retomando um contrato para a recuperação da rodovia e, paliativamente, é realizada a Operação Tapa Buraco", destaca.
No documento, está previsto o restauro de 113 quilômetros, além da execução de um trecho junto ao acesso a Palmares do Sul. O valor da obra é de R$ 49,8 milhões e o prazo que a empresa CC Pavimentadora tem para terminar é de um ano. O superintendente do Daer salienta que o grande fluxo de veículos com carga de arroz e madeira é um dos fatores que aumenta a deterioração do asfalto. No entanto, segundo Guarche, não é possível confirmar se os caminhões trafegam com peso acima do limite. Por isso, está em estudo a instalação de uma balança na região.