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Tintas coloridas transformam a vida de moradores de comunidade da zona Norte de Porto Alegre

Projeto está em busca de mais materiais para seguir honrando legado da ilustre moradora Vó Chica

Pintor Cláudio Pagno iniciou projeto em 2019, e criou uma extensa rede de voluntários
Pintor Cláudio Pagno iniciou projeto em 2019, e criou uma extensa rede de voluntários Foto : Alina Souza

As artísticas calçadas e algumas paredes de casas da rua Luiz Sibemberg, na Vila Safira, bairro Mario Quintana, na zona Norte de Porto Alegre, agradam o olhar ao serem vistas. Pintadas com tintas amarelas, cor-de-rosa, vermelhas, azuis, entre outras, estas verdadeiras obras de arte a céu aberto ocupam grande extensão da via, trazendo uma visão única. Uma vez por ano, voluntários da região se reúnem para reforçar as cores nesta área periférica da Capital. Nesta semana, eles recomeçaram o trabalho, inspirados pelo clima primaveril. Contudo, começam a faltar materiais para prosseguir este trabalho.

Tudo isto é capitaneado pelo pintor predial Cláudio Roberto Pagno da Costa, líder comunitário e prefeito da praça Vó Chica, que fica junto à rua. A praça homenageia a ilustre moradora da Luiz Sibemberg e eternamente lembrada Maria Francisca Gomas Garcia, falecida em 1983, aos 107 anos. Teve 13 filhos e seu legado persiste até hoje na memória de muitos moradores. Um dos netos dela, José Carlos Gomes Ferreira, popular Zeca, 60 anos, é um dos que está auxiliando nas pinturas neste momento.

Criado na Vila Bom Jesus, Cláudio se mudou para a Vila Safira aos 13 anos e montou, em 2000, o projeto Vó Chica, que distribuiu material escolar para 15 mil crianças, arrecadou 12 toneladas de alimentos, e muitas oficinas artísticas. Além disto, ele fez várias placas de rua e inclusive contou sua história na conferência TEDxLAÇADOR, em 2012, além de receber o título de Cidadão Emérito de Porto Alegre. Em 2020, as atividades foram encerradas, após ele passar por uma cirurgia no coração. O projeto, porém, voltou “menor”, conforme descrito por ele.

Agora chamado de Peregrinos Revolucionários, é mantido com a companheira, a ativista Karen Monteiro. A casa de Cláudio, igualmente multicolorida, conserva inúmeras obras em geral da época mais antiga, bem como preserva as tintas que, nos dias atuais, estão se tornando mais raras aos poucos. Desde o começo das pinturas, em 2019, o pintor diz ter arrecadado por volta de 50 mil litros, a partir da distribuidora de uma grande fabricante. “Sempre gostei do voluntariado. Acho que tenho bastante atitude, além de estar sempre disposto”, afirma.

Vó Chica viveu até os 107 anos (Créditos: Arquivo pessoal)

As pinturas iniciaram quando Cláudio viu fotos o que havia sido feito em Kampung Pelangi, conhecida como “Vila Arco-Íris”, na Indonésia. O local virou atração turística global após suas 390 casas terem sido totalmente preenchidas com cores diversas. Embora nunca tenha pisado lá, a vila asiática foi um grande inspiração para o pintor porto-alegrense. Ele conta que não houve dificuldades na aceitação do projeto por parte dos moradores da Vila Safira.

A partir daí, uma grande rede de parceiros surgiu naturalmente. Entre eles, está a autônoma Jenifer Oliveira, 25, moradora do Rubem Berta. “Comecei ajudando com os materiais escolares, mas vim auxiliar nas tintas. Acabei descobrindo um talento que não conhecia”, diz ela, que já foi chamada para ajudar na reforma de uma vizinha. As tintas utilizadas na pintura são acrílicas, que desbotam depois de alguns meses.

Conforme registros mais antigos, nem sempre as cores tiveram a mesma disposição nas calçadas. De qualquer forma, as crianças são quem mais se divertem com jogos de amarelinha pintados no chão. A mãe de Cláudio, a artesã Alzira Pagno, 83, apoia o filho nas atividades. “Ele acaba trabalhando muito, não consegue parar. E nos sentimos muito bem assim”, comenta ela, que ajudou a cuidar de Vó Chica em diversos períodos de sua longa vida.

Na década de 1970, quando a família de Cláudio chegou à Vila Safira, encontrou uma realidade em sua maioria rural e com poucas residências. O chão era batido e as árvores tomavam conta. A farmácia mais próxima ficava a três quilômetros de distância. Aos poucos, mais moradores começaram a chegar, e com eles, novos serviços. A partir das pinturas no chão e nas residências, o pintor avalia que a área ganhou ainda mais vida, e também é uma maneira de preservar sua memória. “Se a Vó Chica estivesse viva, certamente adoraria isto”, conta o voluntário e neto Zeca.