O sonho de reconstruir suas vidas em solo brasileiro fez mais de uma centena de venezuelanos deixar Boa Vista, capital de Roraima, para tentar a sorte no Rio Grande do Sul. A delegação chegou na última terça-feira em voo da Força Aérea Brasileira (FAB). Os 107 migrantes foram distribuídos em abrigos em Porto Alegre, Santo Antônio da Patrulha e Viamão. Sem perspectivas de um futuro na Venezuela, o grupo busca agora por oportunidades de trabalho no Estado.
É o caso de Oscar Eduardo Azocar, 25 anos. Há quase um ano instalado em abrigos em Boa Vista, ele decidiu trazer a esposa Vanessa e as filhas Christaly, de 3 anos, e a brasileira Hanny, de quatro meses, que nasceu em Boa Vista. No currículo, Azocar garante que tem experiência como eletricista, pedreiro e outras atividades. Em Boa Vista, a família encontrou uma dura realidade marcada pela falta de emprego e a chegada de milhares de venezuelanos, diariamente, na cidade.
Instalados em uma casa da instituição filantrópica Aldeias Infantil SOS, no bairro Sarandi, na zona Norte, busca novos horizontes. Em Roraima, Azocar saía todos os dias com um enxada à procura de trabalho. Mas ouvia sempre a mesma resposta. "Sempre que passava nas casas diziam que não podiam mais ajudar, que já haviam passado uns 15 venezuelanos", afirma. "Lá está muito difícil, porque tem muitos venezuelanos que buscam o mesmo sonho de todo mundo, que é tirar sua família de lá e ajudar um pouco a Venezuela, ter um lugar digno onde possa descansar, trabalhar e seguir adiante", acrescenta.
Acompanhado da esposa Vanessa, de 23 anos, que tem experiência como caixa e diarista, Azocar entrou pela primeira vez em um avião para tentar conquistar um emprego na Capital. "Não tenho medo do trabalho, gosto de trabalhar. Sou uma pessoa que aprende rápido, posso aprender muita coisa, como o português, para poder entender tudo que falam. Por isso gostaria de conseguir um emprego", explica. Eles deixaram familiares na Venezuela em busca de dias melhores. "Tenho o sonho de arranjar um emprego em solo brasileiro e trazê-los para cá. Quero ajudar minha família", ressalta.
Problemas políticos na Venezuela
Maireth Alejandra Campos, 35, também deixou Roraima - onde estava havia sete meses - na companhia do marido, Juan Francisco, 51, e dos filhos Wuilker, 18, e Wilson, 10. Licenciada em Recursos Humanos, trabalhava há 12 anos na Venezuela como assistente administrativa. Com esperança de encontrar um ambiente melhor, Maireth relata que foi obrigada a deixar o país com a família por conta dos sucessivos problemas políticos. "Esperamos reconstruir nossas vidas aqui no RS", afirma.
Apesar da decisão de deixar a Venezuela, ela conta que o objetivo é juntar recursos para ajudar familiares que "enfrentam uma situação difícil" naquele país. Maireth lembra que trabalhou seis anos como policial. Depois, Por sete anos conseguiu exercer sua profissão e atuou na parte administrativa. "Neste momento, estou aceitando qualquer trabalho que me ofereçam ou que surja. Tenho toda disposição do mundo. Não tenho restrições a nenhum tipo de trabalho, estou disposta a lutar e seguir adiante", garante.
Diferente da maioria dos migrantes, que têm perfil de nível técnico, a família tem outro integrante com curso superior. Maireth destaca que o marido é advogado com pós-graduação em Direito Penal. E lembra que Juan Francisco trabalhou por 25 anos como policial. "Estudamos, nos esforçamos e trabalhamos por uma melhor qualidade de vida. Lamentamos muito que não temos mais aquela vida. Essas foram as circunstâncias que nos colocaram onde estamos, aqui no Brasil", observa.
Inserção no mercado de trabalho
Coordenador do projeto Brasil Sem Fronteira em Porto Alegre, Claudeson Fernandes de Campos, explica que os novos moradores do abrigo Aldeias Infantil SOS devem ser absorvidos pelo mercado de trabalho. "A inserção está bem rápida. Em dois meses e meio, cinco famílias já saíram daqui. E já tem mais três em processo de saída", garante. Além de realizarem exames médicos, todos migrantes vêm com protocolo de refúgio, CPF, Carteira de Trabalho e Cartão do SUS. "Eles recebem todas vacinas básicas", pondera.
Conforme Campos, o abrigo mantém convênio direto do governo federal com a instituição, com suporte financeiro do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) - órgão da ONU para refugiados - e apoio social da prefeitura. A parceria garante suporte financeiro, mas prevê troca das vagas a cada três meses. "A ideia é que eles fiquem no máximo 90 dias aqui. E nesse período eles já tenham conseguido emprego, alugado uma casa e começado uma vida independente, além de começar a ter autonomia", projeta.
As quatro famílias instaladas em Porto Alegre, num total de 17 pessoas, vão morar em uma casa dentro do abrigo, que conta com 70 vagas temporárias. O local tem cinco casas-lares e oferece pátio e playground. "Cada família fica num quarto. As que são muito grandes, dividimos em dois quartos, quando possível. Eles ganham alimentação e moradia", observa. Além disso, são encaminhados ao Sistema Nacional de Empregos (Sine). "Temos duas empresas que já contrataram dez cada uma", revela.
Um dos problemas enfrentados pelo abrigo, no entanto, diz respeito ao encaminhamento das crianças em idade escolar a alguma instituição de ensino. "Estamos com grande dificuldade, não só para os que chegaram, mas para os que já estão aqui, com educação infantil, em que há um déficit muito grande de vagas para crianças de zero a 4 anos", aponta.
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