Quatorze dias após a aplicação da dose inicial da vacina da farmacêutica chinesa Sinovac, os primeiros voluntários selecionados para participar do estudo retornaram ao Hospital São Lucas (HSL) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) nesta semana, para a segunda aplicação do possível imunizante. Com a conclusão desta etapa, eles passam ser acompanhados pela equipe da pesquisa por meio de um “diário do paciente”.
O HSL recebeu mais de 5 mil inscrições de voluntários interessados em testar a vacina contra o novo coronavírus. Os 852 profissionais da saúde selecionados serão divididos em grupos e após, receberem as injeções, serão monitorados continuamente para a documentação dos resultados. Cada um deverá receber duas doses da vacina ou do placebo, em um intervalo de cerca de duas semanas. A vacinação deverá se estender até outubro.
O líder do estudo e chefe do Serviço de Infectologia do HSL, Fabiano Ramos, diz que foram vacinados 10 voluntários e depois foi feita uma avaliação interna, e no dia 14 a vacinação foi retomada. Até o momento são 210 participantes efetivamente incluídos. "É possível que a gente tenha algumas mudanças no protocolo para ter uma agilidade maior na inclusão das pessoas, pode acontecer a partir da próxima semana, reduzindo as coletas de exame, o que vai agilizar o processo", explica.
De acordo com Ramos, a meta do grupo segue incluir 852 voluntários. "Está indo tudo muito bem, não temos efeitos colaterais importantes, então parece ser realmente uma vacina bastante segura como os estudos iniciais já demonstraram e esperamos que seja uma vacina que realmente traga uma imunização importante para as pessoas", reitera. Os prazos seguem dentro do cronograma elaborado pelo Instituto Butantan, mas Ramos destaca que isso é reavaliado de tempos em tempos.
"Conseguimos incluir de 20 a 30 pessoas por dia, por causa dos procedimentos que têm que ser feitos, muita gente acha que é só chegar no Centro de Pesquisa e fazer a vacina, não é assim. Cada paciente leva até 3 horas, mas com as mudanças que provavelmente vão acontecer, talvez a gente consiga incluir mais pessoas por dia, reduzindo principalmente as coletas de sangue", assinala.
É importante, segundo Ramos, ter um número maior do que 852 voluntários. "Não temos o nome de todas essas pessoas, porque ao longo deste período essas pessoas estão se expondo e sendo contaminadas", diz, lembrando que as equipes têm uma lista de profissionais da saúde que atendem pacientes com a Covid-19, de Porto Alegre ou das cidades do entorno e por ordem de inscrição. "Com muitos não conseguimos contato, ou muita gente marca e não vem, isso é algo importante de ser dito. Todo mundo pode desistir a qualquer momento, mas que pelo menos seja avisado", ressalta, informando que somente nesta quinta-feira 10 pessoas haviam confirmado participação e não foram até o Centro de Pesquisa.
Atualmente na terceira etapa de testes, a vacina está no estágio em que é aplicada em larga escala, o que poderá comprovar em definitivo a sua eficácia e duração da proteção. O HSL, em Porto Alegre, é um dos 12 centros de estudos do Brasil, sendo o único do Rio Grande do Sul, que aplicará o insumo e documentará os resultados junto ao Instituto Butantan, de São Paulo.
Das 9 mil pessoas que participarão da testagem no País, metade receberá a vacina, ao passo que a outra metade placebo, isto é, uma substância sem efeito algum. Por ser um estudo “duplo cego”, somente os farmacêuticos que recebem e acondicionam os imunizantes conseguem saber o que cada seringa contém. Porém, eles não acompanham o momento de aplicação, conduzido pelos pesquisadores junto aos voluntários, que desconhecem o conteúdo das doses em questão.
A estratégia permite a análise e comparação dos resultados pelos dois grupos, validando ou não o efeito da substância. Na prática, o que se espera é que o sistema imunológico dos testados desenvolva anticorpos para o vírus inativado (“morto) da Covid-19 que está presente na vacina, tornando a pessoa em questão imune ao efeito do vírus ativo caso ela tenha contato com o organismo posteriormente.
Confira o cronograma do estudo no Rio Grande do Sul:
1º/7: Instituto Butantan confirma o Hospital São Lucas como um dos centros de estudo para testagem da vacina.
10/7: Formalização do contrato entre o Instituto Butantan e o Hospital São Lucas
20/7: Abertura das inscrições de voluntários para a testagem da vacina
3/8: Hospital São Lucas recebe as primeiras doses do imunizante
8/8: Início da aplicação da primeira dose com os profissionais da saúde selecionados
24/8: Início da aplicação da segunda dose com os profissionais da saúde selecionados
Outubro/2020: previsão de término da aplicação da vacina no Hospital São Lucas
Dezembro/2021: previsão de conclusão do estudo a partir do término do acompanhamento dos voluntários