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América Latina espera mais atenção de Obama em seu segundo mandato

Expectativa é de que presidente tenha mais liberdade para se aproximar de Cuba e combater narcotráfico

América Latina espera mais atenção de Obama em seu segundo mandato
América Latina espera mais atenção de Obama em seu segundo mandato Foto : Jewel Samad / AFP
A América Latina, negligenciada na última década pelos Estados Unidos, espera mudanças em relação a Cuba e à fracassada guerra contra as drogas após a reeleição de Barack Obama. Em geral, os governos do hemisfério sul não acreditam na conquista de sua antiga reivindicação de acesso ao mercado agrícola americano.

Especialistas consultados pela agência France Presse acreditam que a vitória do presidente democrata pode levar a uma flexibilização com a ilha comunista e a uma política de combate às drogas menos focada na repressão, mas a região está ciente de que não é uma das prioridades de Washington. A América Latina esteve praticamente ausente das campanhas de Obama e de seu rival republicano, Mitt Romney. Ainda assim, os hispânicos foram essenciais para a vitória do democrata e esperam ter representação na Casa Branca nos próximos quatro anos.

A região, contudo, só apareceu na campanha, "como um mercado para resolver os problemas econômicos dos Estados Unidos, que impõem medidas protecionistas, principalmente na agricultura", lamentou recentemente Marco Aurélio Garcia, principal assessor sobre relações internacionais da presidente Dilma Rousseff. O vácuo deixado pelos Estados Unidos foi parcialmente ocupado pelo Brasil, que se estabeleceu como o líder de uma região que tem aumentado gradualmente a sua independência de Washington desde 1999, quando os presidentes sul-americanos convocados pelo país se reuniram pela primeira sem um mandatário americano.

A partir de então, a região ganhou autonomia e criou seus próprios órgãos de coordenação política regional sem a presença de Washington, como a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). "Para o Brasil este esquecimento foi bom. Continua a avançar economicamente na região, politicamente está muito bem e as relações com o governo de Barack Obama são excelentes", considerou o ex-embaixador brasileiro em Washigton, Rubens Barbosa, ressaltando, contudo, que os EUA "não vão abrir o setor agrícola".

"No caso brasileiro, a coisa mais importante é defender o fim do protecionismo. Queremos ter acesso ao mercado americano, mas eles têm outras prioridades", afirmou Bruno Borges, especialista em Relações Internacionais da PUC-Rio. Analistas não esperam mudanças em relação à Venezuela, de quem Washington compra um milhão de barris de petróleo por dia e que não é considerada uma ameaça, mas acreditam que Obama poderia abrir a porta para uma flexibilização em Cuba. "Obama sabe que não pode ser reeleito para um terceiro mandato, por isso terá mais liberdade nestes quatro anos" do que em seu primeiro governo, declarou David Fleischer, da Universidade de Brasília. No entanto, por não ter recuperado a maioria na Câmara de Representantes, sua margem de manobra será pequena, alertou Fleischer.

O presidente americano já eliminou restrições ao envio de remessas a Cuba e ampliou as permissões para viajar à ilha. Havana anunciou, por sua vez, que a partir de janeiro os cubanos não vão precisar de permissão para viajar ao exterior. Obama "já não tem nada a perder. Queria realizar uma abertura desde o início, não fez isso porque a comunidade cubana não permitiu", mas agora "será capaz de uma abertura maior", indicou Barbosa.

Para Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas, Cuba "não é uma prioridade". Ele acredita que Obama deverá lidar com um Congresso mais radicalizado e com a forte oposição do bloco anticastrista na Flórida. Obama fará uma aposta melhor "se esperar que Raúl Castro abra mais o país", considerou. Assim mesmo, a reeleição de Obama desperta esperanças sobre novas maneiras de enfrentar a violência ligada ao narcotráfico, que apenas no México, que compartilha 3,2 mil quilômetros de fronteira com os Estados Unidos, causou 60 mil mortes nos últimos seis anos.

Obama terá "uma maior abertura para o debate sobre uma eventual mudança na estratégia repressiva contra a produção e comercialização da droga", acredita Mario Torrico, da Faculdade de Ciências Sociais do México. Em sua última reunião com seus colegas latino-americanos, em Cartagena em abril, o presidente aceitou estudar alternativas à guerra contra as drogas lançada pelos Estados Unidos em 1971 e centrada na interdição, que não diminuiu nem a produção nem o consumo.

"Não podemos analisar o tema da oferta sem considerar a questão da demanda dos Estados Unidos", devemos trabalhar com países como o México "não apenas em cima das drogas que chegam ao norte, mas também das armas e do dinheiro provenientes do sul", reconheceu na ocasião.



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