Centenas de milhares de argentinos, convocados pelas redes sociais, saíram às ruas de Buenos Aires nesta quinta-feira para protestar em um grande "panelaço" contra a presidente Cristina Kirchner. Os manifestantes levaram cartazes e gritaram palavras de ordem criticando a insegurança, a proibição da compra de dólares, a corrupção e a reeleição para um terceiro mandato de Cristina.
"Salvem a República", escancarava um grande cartaz à frente da passeata que percorreu a avenida Santa Fé, na residencial zona norte, em direção ao tradicional Obelisco, epicentro do protesto. "Sim a democracia, não a re-reeleição" era o lema principal do protesto, que reuniu descontentes em diversos pontos da capital argentina, inclusive diante da residência da presidente em Olivos, onde mais de 15 mil pessoas bateram panelas.
O protesto, divulgado principalmente na internet e acompanhado em várias cidades do país, como Rosário, Córdoba, Mendoza e Bariloche, não teve caráter partidário ou sindical. A multidão, salpicada de bandeiras azuis e brancas, ocupou o Obelisco sob um grande cartaz com a frase "Chega de matar", em alusão à crescente violência criminal no país. O protesto também invadiu a tradicional Praça de Maio, diante da Casa Rosada, sede do governo.
Outro fator de irritação e protesto foi o apagão que atingiu nas últimas horas Buenos Aires e sua periferia, em meio a um calor incomum na primavera austral. Balões azuis e brancos traziam o pedido de "Justiça independente" flutuando sobre a multidão, que interrompeu o trânsito na Avenida Corrientes, no centro de Buenos Aires. "Não gosto do autoritarismo de Cristina. Não pode fazer o que quer porque foi reeleita com 54% dos votos", disse Federico Chelli, um estudante de 20 anos.
"Estou aqui porque muitos jovens estão morrendo (nos assaltos) e porque o governo é corrupto, só fazem mentir, são ladrões com contas na Suíça", disparou uma aposentada de 62 anos. O protesto ganhou contornos globais ao ser acompanhado por argentinos que vivem em Nova Iorque, Washington, Paris, Roma, Madri, Toronto e Miami. Em Londres, cerca de 150 argentinos repetiram o "panelaço" diante da embaixada da Argentina.
"Quero voltar, mas como a situação está agora não é possível. Está muito complicado para todos", salientou Micaela, mulher de 29 anos que mora há três na capital britânica, onde trabalha com pesquisa de mercado. "O mais preocupante para mim é a insegurança e a falta de liberdade. Já não há liberdade de expressão e não se pode trocar dólares, as pessoas não podem poupar em dólares. Isto é uma vergonha, com um país cheio de recursos, não há explicação", definiu descontente.
Kirchner chegou ao poder em 2007 e em 2011 foi reeleita para um segundo mandato, que concluirá em 2015. A Constituição argentina não permite uma segunda reeleição, mas setores do governo já falam em uma reforma ao estilo do presidente venezuelano, Hugo Chávez, o que é rejeitado por mais de 80% da população, segundo pesquisas. Mas a principal preocupação é a violência crônica, traduzida em assaltos, e a inflação.
As eleições para a renovação da metade da Câmara dos Deputados e de um terço do Senado estão previstas para outubro de 2013, e segundo os analistas, dificilmente Cristina obterá uma vitória capaz de lhe assegurar os dois terços do Congresso necessários para reformar a Constituição.
Argentinos protestam em massa contra Cristina Kirchner
Centenas de milhares ocuparam o Obelisco e a frente da casa da presidente em Buenos Aires