Depois de quase seis décadas, Cuba inicia uma nova era, com o general Raúl Castro transmitindo a Presidência para Miguel Díaz-Canel, um civil preparado pelo Partido Comunista para dirigir os destinos da Ilha. Até agora número dois do governo, Díaz-Canel Bermúdez recebeu nesta quinta-feira a decisão da Assembleia Nacional de Cuba, que submeteu à votação a proposta para ungi-lo como sucessor dos irmãos Fidel e Raúl Castro à frente do país.
"Miguel Mario Díaz-Canel, de 57 anos, foi eleito Presidente do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros da República de Cuba pela recém-constituída Assembleia Nacional do Poder Popular em sua Nona Legislatura, em sessão a partir desta quarta-feira no Palácio de Convenções de Havana", informou o blog governista Cubadebate.
Em seu primeiro discurso como presidente na Assembleia Nacional, o novo presidente de Cuba prometeu continuar tanto a revolução de seus antecessores quanto a atualização do modelo econômico iniciada com seu antecessor, Raúl Castro. "O mandato concedido pelo povo a esta legislatura é dar continuidade à revolução cubana em um momento histórico crucial, que será marcado por tudo que devemos avançar na atualização do modelo econômico", disse Díaz-Canel.
Prova de habilidade
Primeiro-vice-presidente desde 2013, este engenheiro eletrônico escalou discretamente a linha de comando, respeitando os caminhos estabelecidos dentro do Partido Comunista de Cuba (PCC). Raúl, de 86 anos, levou-o para seu lado, encarregou-o de representar o governo em visitas oficiais ao exterior e o preparou para assumir o cargo mais importante da Ilha, enquanto a imprensa estatal lhe dava mais espaço. Lembrado por ser um dirigente que andava de short e de bicicleta, soube construir uma imagem mais renovada e moderna, defendendo o desenvolvimento da Internet e de uma imprensa mais crítica. Foi severo, porém, contra os opositores e os diplomatas propensos a criticar o governo em público.
Encarregado de liderar uma transição histórica em um primeiro mandato de cinco anos, será o primeiro líder cubano nascido depois da Revolução de 1959 e terá de forjar uma legitimidade que foi natural para os Castro. "É difícil avaliar a capacidade de Díaz-Canel para ser presidente (...) Vem do sistema, mas é a rigidez do sistema o maior obstáculo para avançar com as mudanças econômicos e políticas necessárias (...) Será uma prova de sua habilidade política", considerou o presidente do think tank Interamerican Dialogue, Michael Shifter. "E pode encontrar resistências", acrescentou.
Poder menos centralizado
O novo presidente terá de manter o equilíbrio entre a reforma e o respeito aos princípios revolucionários, mas deverá se esforçar para atualizar o modelo econômico, um projeto iniciado por Raúl Castro. A tarefa mais urgente é a unificação das duas moedas nacionais que circulam no mercado, além da eliminação de taxas de câmbio preferenciais para empresas estatais - que são maioria na Ilha -, situação que gera distorções em uma economia afetada pelo embargo imposto pelos Estados Unidos desde 1962.
Em nível diplomático, o futuro chefe do Executivo cubano deverá lidar com o retorno de Washington à linguagem da confrontação, devido à chegada de Donald Trump ao poder, que deu marcha a ré na aproximação do final de 2014. Raúl sucedeu ao irmão Fidel em 2006, quando este ficou doente, vindo, então, a falecer em 2016. Iniciou uma série de reformas impensadas para sua economia de modelo soviético, como a abertura a investimentos estrangeiros e à geração de negócios próprios, junto com a histórica aproximação com os Estados Unidos, seu inimigo da Guerra Fria.
Segundo analistas, as mudanças foram tímidas e não conseguiram reativar uma economia altamente dependente das importações e de sua aliada Venezuela, mergulhada na crise. Para cuidar de seu herdeiro político e guiá-lo nesse novo caminho, Raúl Castro conservará suas funções como secretário-geral do PCC até 2021, quando completa 90 anos. O futuro número dois do governo, Salvador Valdés Mesa, político afro-cubano de 72 anos, também poderá ajudá-lo a conter a possível resistência da velha guarda, não muito disposta a sacrificar o legado socialista sob a espada das reformas.
Dois líderes históricos, Ramón Machado Ventura, de 87, e Álvaro López Miera, de 76, deixarão o Conselho de Estado, mas outros com credenciais parecidas, como Ramiro Valdés, 85, Guillermo García, 90, ou Leopoldo Cintra Frias, 76, permanecem. O novo Conselho de Estado terá 13 de seus 31 membros renovados. Espera-se a nomeação de novos integrantes do Conselho de Ministros nos próximos dias.
Especialistas acreditam que a nova configuração do poder cubano estará menos centralizada. "O modelo de governo dos Castro provavelmente passará por uma transição geracional e talvez adote um estilo de liderança mais institucional e burocrático do que carismático e pessoal como o que Fidel estabeleceu e Raúl reformulou", considerou Jorge Duany, diretor do Instituto Cubano de Pesquisa da Universidade da Flórida.
Assembleia Nacional confirma Miguel Canel como presidente de Cuba
Sucessor de Raúl Castro tem 57 anos e eleição marca nova era na ilha após seis décadas de revolução