Filósofo consagrado, autor de vários best-sellers mundiais, como “A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo” (1983), “O crepúsculo do dever: a ética indolor dos novos tempos democráticos” (1994, publicado no Brasil como “A sociedade pós-moralista”), “Metamorfoses da cultura liberal” (2002), “Os tempos hipermodernos” (2004), “A sociedade da decepção” (2006), “A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada” (2010) e “Da leveza” (2015), Gilles Lipovetsky, 71 anos, defende que o terrorismo vive uma nova etapa e que os atentados não podem ser explicados em profundidade em razão da presença da França no Oriente Médio ou do desemprego e da falta de oportunidades para imigrantes muçulmanos.
• França se questiona por que é alvo de atentados
Para Lipovetsky, o próprio Estado Islâmico admite que considera a França como alvo prioritário: “As razões disso são muitas. Elas passam pela participação francesa no teatro das operações contra o terrorismo na Síria e no Iraque. Mas isso não explica tudo. A França tem atuado na África: no Mali, na Nigéria, na Mauritânia e no Chade, especialmente contra o Boko-Haram. Antes disso, sob a presidência de Nicolas Sarkozy, houve intervenção na Líbia e combate no Afeganistão. Por tudo isso, a França é vista como inimigo do islamismo”. O filósofo pretende que outros elementos são mais explicativos: “A França está mais comprometida do que outros países. A Alemanha, por exemplo, permanece quase de lado. Mais importante que isso é o fato de a França representar aos olhos dos radicais islâmicos o mal absoluto como nação revolucionária de uma laicidade militante”.
Para Gilles Lipovetsky, a França é vista como uma nação de ateus em luta contra as religiões: “O Estado Islâmico é um califado. Quer difundir o islamismo no planeta. A França é tida como um obstáculo, que ofende os valores sagrados proibindo véus e burcas ou permitindo, pela liberdade de expressão total, a publicação de caricaturas do profeta, como no caso do jornal Charlie Hebdo”. Se muito se fala do número de muçulmanos morando na França, Lipovetsky destaca o número crescente de jovens franceses convertidos ao islamismo e que foram ao Oriente Médio para se radicalizar: “Em torno de 35% dos radicais são convertidos. Quase 700 franceses estão no exterior, contrariando a lei, para se formar no Estado Islâmico. Quando voltam, querem morrer como mártires. É algo muito novo”.
A novidade consiste na “leveza” do método: “Um homem sozinho agiu em Nice. Não precisa mais uma multidão nem recursos importantes. O ataque às torres americanos exigiu uma logística complicada e cara. Em Nice, bastou o elementar: um caminhão e um homem pronto a morrer. Parece um filme de Spielberg. A França é uma das maiores potências mundiais e as ações dos terroristas não são militares, mas de comunicação. O importante é gerar o caos e seduzir pessoas para que se convertam a abracem a causa islâmica. É a sedução pela morte. Ao atingir uma potência, consegue-se seduzir muitos que hesitavam”.
A sedução da morte faz existir: “Tudo é simbólico. Atingir um grande país vale mais do que atacar um pequeno. A França, nesse sentido, tem mais valor do que a Dinamarca. Paris e a Côte d’Azur têm alto valor simbólico, assim como Nova Iorque. O atentado é um instrumento de comunicação, de propaganda, de mobilização de tropas. Atacar Varsóvia não teria o mesmo peso. Toda a operação é estratégica e simbólica. Michel Onfray perdeu a oportunidade de se calar ao dizer que a França está pagando pelas suas ações em territórios islâmicos. Essa tese da reação não se sustenta. Primeiro, a França tem razão em agir. Em seguida, países muçulmanos como a Turquia, o Egito e a Arábia Saudita sofrem ataques. Países árabes pedem a intervenção ocidental. Temos de parar com esse delírio de intelectuais que só falam em reação. Trata-se de uma política autônoma, que visa a França por ela ser emblemática como nação laica. É mais do que uma reação”.
Uma atração que faz da morte uma maneira de viver e que vai muito além da falta de oportunidades e da exclusão social: “O fenômeno capital é que franceses se convertem. Por quê? Por razões que pouco têm a ver com exclusão social. São jovens que estudaram e pertencem a meios sociais pequeno-burgueses. A conversão tem a ver com o individualismo extremo da nossa sociedades. Eles buscam um espaço coletivo numa época de perda de influência das grandes instituições sobre nossas consciências. O jihadista é um indivíduo que paradoxalmente faz qualquer coisa para se apagar como indivíduo. Ele quer obedecer a uma lei, a lei corânica. O terrorista de Nice bebia e dançava salsa. Ele se radicalizou rapidamente. Estamos em sociedades pós-tradicionalistas, que geram mal-estar existencial, nas quais certos indivíduos procuram uma referência forte e se deixam seduzir por causas mortais. São jovens, quase não há velhos nisso. No capitalismo, a atração é feita pelo cinema, pelo entretenimento e pelo consumo. Há, porém, quem se deixe atrair e seduzir pela morte.”
O terror vai prosseguir. Gilles Lipovetsky não duvida disso: “Os atentados vão continuar. Numa sociedade de angústia individual e de insegurança, será necessário investir em educação para fabricar outra maneira de estar no mundo. Por enquanto, para os mais desesperados, o islamismo oferece um modelo totalmente regulado, da maneira de falar a comer e rezar, o que produz segurança coletiva e uma sentimento de identidade”.
O perfil típico do terrorista mudou. Existem de todos os tipos e meios sociais: homens e mulheres, empregados e desempregados, solitários e em grupo, com diploma superior ou não. O desemprego não tem como explicar tudo isso: “Pertencer a um grupo terrorista é uma maneira de se reconstruir pela qual o indivíduo pensa encontrar uma nova dignidade existencial por combater pela causa que considera justa e sagrada. Aulas de moral e de civismo nada resolverão. Só uma mudança de valores e de sentido. Os jovens precisam de paixões que não estão encontrando a cada dia”.
O sociólogo Dominique Wolton, 69 anos, membro do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) e diretor da prestigiosa revista de ciências sociais Hermès, especialista em comunicação política, autor de livros como Terrorismo na primeira página: mídia, terrorismo e democracia, junto com Michel Wieviorka (1987), War Game, a informação na guerra (1991), Internet, e depois? (1999) e Informar não é comunicar (2009) sustenta que a França é alvo por ser a imagem do ocidente odiada pelos radicais, mas não deixa de destacar a participação francesa no combate aos grupos terroristas islâmicos e o contingente de muçulmanos radicados em solo francês.
Para Wolton, a saída imediata é paradoxal: “A solidariedade entre os países europeus é a única alternativa agora. Cada país deve ajudar o outro a defender os valores da Europa. Mas isso levará certamente a uma Europa obcecada pela segurança. Para se proteger, a Europa terá de ser um pouco menos o que a caracteriza: espaço de liberdade”. O sociólogo não acredita que a exclusão social seja o principal alimento da radicalização de jovens franceses ou de origem magrebina vivendo na França: “É mais complicado do que isso. Razões culturais, existenciais, religiosas e políticas explicam a onda de atentados. Será preciso investir na formação de outra mentalidade para superar o mal-estar experimentado por muitos atualmente”.
Ataques na França refletem hipermoderno e sedutor
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