Quase 1/5 da população brasileira não teve acesso adequado à alimentação nos últimos três anos. São 8,4 milhões, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgado nesta quarta-feira. Houve melhora ante a medição anterior, mas o País se mantém no Mapa da Fome global. Divulgado anualmente, o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo mostra que, entre 2021 e o ano passado, 3,9% da população brasileira apresentou desnutrição crônica.
A Organização das Nações Unidas (ONU) considera que um país integra o Mapa da Fome quando esse índice é igual ou superior a 2,5% do total da população. O resultado é melhor do que o apresentado no relatório do ano passado, com recuo de 0,8 ponto porcentual - 1,7 milhão deixou de sofrer de desnutrição crônica, o equivalente a um terço do necessário para tirar o País do Mapa da Fome. Houve, porém, elogios ao avanço.
'O Brasil fez um progresso formidável, diminuindo o porcentual dos que estão com fome', disse o diretor geral da FAO, Qu Dongyu. Apesar disso, há 39,7 milhões de brasileiros com insegurança alimentar moderada ou grave. Segundo a agência das Nações Unidas, a moderada é aquela em que a pessoa tem dificuldade em ter acesso a uma alimentação adequada, o que faz com que em determinado período acabe comendo menos ou com menor qualidade. Já a insegurança grave é quando falta efetivamente comida por um dia ou mais.
Em abril, um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), apontou que um em cada quatro brasileiros teve algum grau de insegurança alimentar no ano passado. O levantamento incluiu também casos em que a insegurança era considerada leve - quando há incerteza sobre o acesso à comida no futuro.
NO MUNDO
Uma de cada 11 pessoas no mundo enfrentou a fome no ano passado, proporção que chega a 1 de cada 5 das que vivem na África. Além disso, 1/3 da população do planeta não tem condições financeiras para ter uma alimentação saudável. Segundo o levantamento, o total de famintos no planeta ficou entre 713 milhões e 757 milhões de pessoas em 2023, considerado estável no triênio. Mas o número global esconde diferenças regionais: enquanto a desnutrição crônica diminuiu na América Latina e no Caribe, se manteve inalterada na Ásia e voltou a crescer na África.
Com 3,9% da população em desnutrição crônica, o Brasil tem índices próximos aos de Taiwan (3,7%), Geórgia (4%) e Sri Lanka (4,1%). Para a FAO, na América do Sul, só o Chile, a Guiana e o Uruguai estão fora do Mapa da Fome. Entre os continentes, o pior índice está na África, onde 19,9% da população passa fome. Considerando os países, a desnutrição atinge seus maiores patamares em Somália (51,3%) Haiti (50,4%) e Madagáscar (39,7%) e Iêmen.
Em 2015, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento estabeleceu como um de seus 'Objetivos de Desenvolvimento Sustentável' para 2030 acabar com a fome no mundo e garantir o acesso a alimentos seguros, nutritivos e suficientes. Agora, a própria ONU reconhece que a meta está distante de ser atingida, 'com a prevalência global de subnutrição persistindo praticamente no mesmo nível por três anos consecutivos', conforme diz a FAO em seu novo relatório. Com os resultados atuais, a projeção é de que 582 milhões de pessoas estejam subnutridas em 2030.