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Britânicos protestam por novo referendo do Brexit

Manifestantes vieram de todos os cantos do país e marcharam pelo centro da capital até a sede do Parlamento

Britânicos protestam por novo referendo do Brexit
Britânicos protestam por novo referendo do Brexit Foto : Niklas Halle'n / AFP / CP
A cinco meses da saída do Reino Unido da União Europeia, mais de meio milhão de britânicos, segundo os organizadores, marcharam neste sábado em Londres para pedir um novo referendo sobre o Brexit. Os manifestantes vieram de todos os cantos do país, transportados por cerca de 150 ônibus, e marcharam pelo centro da capital até a sede do Parlamento.

O objetivo é convencer a primeira-ministra, Theresa May, a convocar uma segunda consulta popular sobre o tema. A premiês conservadora, no entanto, garantiu que não convocará uma segunda consulta enquanto estiver no poder. Ela ainda negocia os termos de um acordo sobre o divórcio com representantes de Bruxelas.

Segundo Matt Qvortrup, professor de ciências políticas da Universidade Coventry, a realização de uma nova votação faria sentido em razão do nível de informação da opinião pública sobre o assunto hoje. "Não se trata de votar de novo o primeiro referendo, porque seria um voto sobre as implicações práticas do Brexit, ausentes do debate em 2016", disse.

O futuro da relação entre UE e Reino Unido pós-Brexit está tomando forma nos corredores de Bruxelas. Depois de mais uma maratona de reuniões nesta semana, pela primeira vez ambos os lados admitiram que o divórcio se encaminha para uma separação "amigável". Apesar das pressões de grupos eurofóbicos do Partido Conservador e de setores contrários à ruptura, o Brexit "suave", defendido pela premiê Theresa May, começa a se impor.

As condições da provável separação estão mais claras. Entre 29 de março de 2019 e 31 de dezembro de 2020, o Reino Unido já não fará mais parte dos países-membros da União Europeia, não participará de cúpula, não terá direito a voto e nenhum poder de interferência nos assuntos internos do bloco.

No entanto, Londres ainda fará parte do mercado comum europeu até que um novo acordo de livre-comércio seja implementado. O Reino Unido também estará sujeito às mesmas regras de livre circulação de pessoa usadas hoje. Os britânicos seguirão sujeitos às legislações e às decisões das cortes europeias. Bancos, seguradoras e fundos de capital poderão continuar a negociar com instituições do continente, com um "passaporte financeiro" provisório. Questão política sensível, o futuro do Estreito de Gibraltar, enclave britânico em solo espanhol desde 1713, também já foi "resolvido", segundo o premiê espanhol, Pedro Sánchez.

Contudo, dois temas ainda podem travar as negociações. O primeiro é o mais complexo de todos: o futuro da fronteira entre a Irlanda, país-membro da União Europeia, e a Irlanda do Norte, território britânico. Atualmente, norte e sul da ilha convivem em integração estreita - a despeito, por exemplo, de terem moedas diferentes. A questão pendente diz respeito ao retorno ou não de uma fronteira física, em caso de desligamento do Reino Unido sem um acordo de livre-comércio com Bruxelas.

Essa hipótese é rejeitada pela UE, pelos irlandeses e pelo governo britânico, mas não é descartada pelo Partido Unionista Democrático (DUP), que reúne os protestantes da Irlanda do Norte, membros da base de apoio a May no Parlamento. A legenda poderia derrubar a premiê em caso de insatisfação. Para Elvire Fabry, pesquisadora do Instituto Jacques Delors, o retorno da fronteira na Irlanda tornou-se a questão-chave do divórcio, com implicações sobre o acordo de paz de Sexta-feira Santa, de 1998, que pôs fim à guerra civil entre católicos e protestantes na ilha. "Hoje, o menor retorno de controle de fronteira seria uma ameaça", diz.

A segunda grande questão em aberto é se haverá prolongação do período de transição. Uma negociação por mais um ano, até 2021, está em curso, mas ainda não foi confirmada. Embora as condições do divórcio estejam mais claras, as forças políticas continuam duelando no interior do Parlamento britânico e nas ruas do país. Em Westminster, May vem sendo pressionada pela ala eurocética do Partido Conservador, que não deseja o "Brexit suave", mas um duro, em condições impostas por Londres. Já a oposição do Partido Trabalhista luta pela antecipação das eleições gerais. Um ponto de encontro possível entre os opositores poderia ser a decisão de realizar um novo referendo.